quarta-feira, julho 19, 2017

Sérgio de Castro PINTO

  • Os 50 anos de poesia de Sérgio de Castro Pinto
    Salomão Sousa
    Na Paraíba, a poesia está em festa neste ano de 2017 para comemoração
    dos cinquenta anos da poesia de Sérgio de Castro Pinto. A Fundação Espaço Cultural
    da Paraíba, com a terceira edição do evento Agosto das Letras, no período de 17 a
    20 de agosto, vai homenagear o poeta. Serão quatro dias de debates, o+cinas, feira
    de livros e lançamentos.
    A poesia de Sérgio de Castro Pinto que, desde o primeiro livro Gestos lúcidos
    (1967), nas de+nidoras palavras de Geraldo Carvalho, prima pela “contenção da
    linguagem, o jogo verbal reduzido ao mínimo e expressando o máximo”. Acaba de
    ser editado um volume com a fortuna crítica de sua poesia, com uma centena de
    artigos e resenhas. Destaco os textos de Ivo Barroso, Gilberto Mendonça Teles e
    Anderson Braga Horta.
    Em resenha incluída no livro, Fernando Mendes Vianna também aponta a
    “poética exemplar em matéria de poder de condensamento, em que o duplo gume
    de uma síntese analítica não mutila o poder verbal, mas reforma uma sadia víscera
    poética, salientando inclusive o sentido social de uma cirurgia crítica brilhante”.
    Esse condensamento ganhou forma ao longo da carreira poética exitosa de Sérgio
    de Castro Pinto, que contribuiu para descentralizar para o Nordeste as experiências
    inovadoras de quebra da tradição com as novas possibilidades das vanguardas.
    Poética essa aliada à sua viva atuação na ambiência crítica da Paraíba.
    Faço essas anotações livres para expressar o impacto que sinto no convívio
    com a poesia de Sérgio de Castro Pinto. Texto bem livre, talvez até com alguma
    inexatidão, mas com legítima sinceridade. Texto livre numa tarde de descanso, mas
    com o desconforto de saber que outros poetas se ofuscam em diversas paragens
    com os desentendimentos do homem no mundo. A diversidade com que é
    produzida a poesia brasileira e a extensão do território muitas vezes nos tornam
    opacos ou ausentes uns aos outros.
    Ter nascido no mesmo ano de publicação do livro Invenção de Orfeu, de
    Jorge de Lima, me deixa sempre comovido. viria a conhecer essa poesia de
    construção inquebrável muitos anos depois, e não poderia praticá-la, pois seria
    percorrer estrada trilhada. E depois me comove encontrar a obra daqueles que
    produziram poesia nos mesmos anos por mim vividos. Adriano Espíndola é um
    deles, que, como eu, nasceu em 1952. E também me comove e enriquece a poesia
    de Sérgio de Castro Brito, que recentemente passei a avaliar com mais justiça e
    extensão, e para nos tornarmos transparentes e presentes um ao outro. Esse
  • parágrafo pode estar fora do contexto. Mas quem de+ne o que entra e sai de um
    texto é o autor e o autor aqui deseja fazer emergir e criar familiaridades.
    Surpreendente ler a produção poética de Sérgio de Castro Pinto e encontrar
    o clima tenso do momento histórico que vivíamos e abordávamos na poesia em
    regiões distintas. Prova de que a ditadura angustiava todos os escritores do país. O
    medo subjacente, o vazio de estar se sentindo inútil numa repartição, numa sala de
    aula, pois viemos de uma geração participativa.
    No livro A ilha na ostra, de 1970, que guarda intensa relação com o universo
    contemporâneo, se encontra o poema “Duas borrachas”, que leio sempre como um
    símbolo de composição de poema que nasce para representar uma geração e para
    validar o ato de produção poética. No gesto criativo de Sérgio Castro Lima, a
    borracha não é algo estanque, que simplesmente anula. A borracha é abordada
    como se fosse a própria ação do homem do período do regime militar. um verso
    que lembra outras "borrachas que solidárias" desejam limpar outras borrachas, que
    certamente não continham sol, pois preocupadas em criar escurecimentos com
    seus erros:
    a borracha alimenta-se
    de medo e do inexato
    Fico esperando que um poema como esse, escrito no mesmo ímpeto
    drummondiano de uma “Máquina do mundo”, tenha luminescência no
    conhecimento da nacionalidade. Com um poema desses podemos reconhecer que
    somos seres que desejam estar instaurados fora do caos. Um poema desses vem
    rea+rmar que muitos excessos da realidade continuam a merecer a ação da
    borracha para inscrição de novos destinos na escritura da história.
    Eu, Sérgio de Castro Pinto, Alberto da Cunha Melo, Adriano Espíndola,
    Brasigóis Felício, Gabriel Nascente e tantos outros, vindos de um mundo falido, de
    poética em busca de si mesma, tínhamos de organizar outro formato de produção
    poética e de questionamento da realidade. Talvez esse período se torne mais
    compreensível com a ação de uma historiogra+a que consiga encaixá-la no
    contexto da nacionalidade. Nosso mundo caótico, repressivo, ainda não foi
    analisado e compreendido para melhor inclusão da poesia no contexto daquela
    realidade. Vão surgindo outras gerações e parece que esta que resistiu não pode
    ocupar algum momento de clareza, devendo permanecer ali no limbo intocável de
    todos os erros do período. E a poesia dos anos de chumbo era guerreira, viva,
    sanguínea. Poesia que catalisou medo e fracasso. Uma poesia vitoriosa, resistente,
    mesmo com temas sutis e composição disfarçada nas mutações dos
  • desmembramentos vanguardistas, dela emerge o homem angustiado e perseguido.
    É uma honra ter produzido nesse período e poder estar buscando outros formatos
    de ajuste da poética em outros tempos, também sombrios, pois sem metas e, pior
    ainda, sem compromissos sociais.
    Rendo, daqui de Brasília, com estas palavras ao estilo de notas de rede
    social a minha homenagem aos setenta anos de vida e cinquenta de poesia de
    Sérgio de Castro Pinto, que, em João Pessoa, permanece ativo na poesia. Busca e
    anima formatos. É importante a atividade de poetas que motivam a juventude para
    a arte. E Sérgio de Castro Pinto motiva, assim como Jamesson Buarque incentiva a
    juventude à exaustão na fronteira de Goiânia.
    Voltarei a João Pessoa só para me encontrar com Sérgio de Castro Pinto e nos
    sentarmos diante de uma paisagem.