quarta-feira, março 13, 2013

Dhiogo José Caetano de Uruana, Torna-se Membro Honorário imortal da Acla


Dhiogo José Caetano de Uruana, Torna-se Membro Honorário imortal da Acla
MEMBROS CORRESPONDENTES IMORTAIS( Nacional e Internacional):

Cadeira - Acadêmico - Categoria - Localidade de residência - Cargo

115- Dr. José Gomes da Silva Neto – Psicanalista e Psicoterapeuta – Delegado Regional da ACLA/MG – Cachoeiro do Itapemirim/ES.
116- Paulo Henrique dos Santos Ferreira – Professor de História/ Patrimônio Cultural – Delegado Regional da ACLA/MG – Curuçá/ Pará. 
117- Bárbara Pérez – Escritora/ Presidente da Academia CACL de Marataízes – Delegada Regional da ACLA/MG – Marataízes/ES. 
118- Roberto Vital da Silva – Artesão – Delegado Regional da ACLA/MG – Igarassu/Pernambuco.
119- Sciortino Antonio Nato A. Palermo – Professor de Teologia – Monreale/Itália. 

MEMBROS HONORÁRIOS IMORTAIS - QUADRO 04:

Cadeira - Acadêmico - Categoria - Localidade de residência - Cargo

133-S.A.R.I. Principe Dom Alexander Comnène Palaiologos Maia Cruz – Presidente da FEBLACA – São Paulo/SP .(H. Internacional) 
137-Dom Carlos Santos Saavedra Bravo – Soberano Gran Maestre Comandante General/Soberana Orden Militar Del Deber Sagrado. Venezuela (H. Internacional). 
138- Dr. Raimundo Holgado Cantalejo – Presidente Provincial de La Asociación Española de Amigos de lós Castillos- Espanha (H. Internacional). 
139- Dr. Jésus Acácio de Oliveira – Professor/Filósofo/Poeta e Escritor – Brasília/DF. 
140- Dhiogo José Caetano – Professor/Escritor/Poeta – Uruana/ Goiás. 
Dhiogo José Caetano -Dhiogo José Caetano é de Uruana interior de Goiás; filho de Valdson Caetano Filho e Lucinete José Veloso. Graduado em História pela UEG - Universidade Estadual de Goiás, jornalista, Pós graduado em Memória do Imaginário e Literatura . Tem diversos trabalhos e artigos publicados Jornal o Povo, Jornal o Dia, Jornal Diário da Manhã, Jornal Populacional, Canto dos Escritores, Só Poetas Por Vir, Poetas de Domingo, Poetas Livres e em outras revistas como: Revista Factus, Partes e Hímpeto Editorial. Também faz parte de projetos literários: Nova Coletânia, Rocco, Publicações Iara, Encantos do Brasil II da Mandio Editora, Novos Poetas da Editora Videira, Prêmio Valdeck, Editora Celeiro, Editora Literacidade, Poesia Encanta II, III e IV, Canapé, Litteris, Palavras Sem Fronteiras. É colunista: Poetas Brasileiros, Mar de poemas. Artista revelação 2011 prêmio organizado pela Interarte juntamente com Academia de Letras de Goiás, ganhador do prêmio cultural Interarte 2012, Prêmio Nacional Olavo Bilac 2012, Prêmio Nacional Buriti 2012. Correspondente das academias: ACLAC Academia Cabista de letras e Artes, ARTPOP Academia de Arte do Rio de Janeiro , CACL Academia Marataizense de Letas do Estado do Espírito Santos membro da AVSPE Academia Virtual Sala dos Poetas, Escritores, membro da ACLA, Comendador da ALG Academia de Letras de Goiás Velhos, Correspondente da Academia de Letra do Brasil/Suíça, Senador da FEBACLA Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes, Cavaleiro Comendador da Ordem Soberana , Militar do Dever Sagrado Extraordinary Member of the CSLI e Master Sergeant CSL. O seu objetivo é continuar a caminhada em direção do ensinar e aprender, corroborando para a publicação de diversos textos, livros, artigos, poemas, etc. Currículo Lattes:  http://lattes.cnpq.br/1318205190902971

MEMBROS HONORÁRIOS IMORTAIS - QUADRO 05:

Cadeira - Acadêmico - Categoria - Localidade de residência - Cargo

141- Dr. Alan Simião – Marquês de Askos – Rio de Janeiro/RJ.
142- Dom Leandro Ribeiro – Duque Dom dos Ribeiros de Sarmathia – Rio de Janeiro/RJ.
143- Dr. Hércules Pires do Nascimento – Conde Pires do Nascimento – Rio de Janeiro/RJ.
144- Dr. Oséas da Silva Costa – Visconde do Vale de Kastoria – Rio de Janeiro/RJ. 
145- Major Ivani Damasceno – Militar da reserva- Ponte Nova/MG. 
146- Leila di Domenico – Artista/Ativista Cultural – Chapecó/ Santa Catarina. 
147- Ladir Wigikoski - Artista/Ativista Cultural – Chapecó/ Santa Catarina. 
148- Carlos Alberto Hang - Artista/Ativista Cultural – Joinville/ Santa Catarina. 
149- Dalci Schneider Filho - Artista/Ativista Cultural – Balneário/ Santa Catarina. 
150- Rosecler Hoss - Artista Plástica – Chapecó/ Santa Catarina.
151- Maria Dolores Pimentel Rezende - Escritora/ Professora - São José do Calçado/ES.


Dhiogo José Caetano Professor, escritor e jornalista 
Comendador da Academia de Letras de Goiás.  Senador da FEBACLA Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes 
Membro das Academias:  ALB (Brasil/Suíça), ACLAC (RJ),  ACLA (MG), CACL (ES), ARTPOP(RJ) e OsConfradesdaPoesia (Portugal)

quarta-feira, outubro 24, 2012

Prêmio Jabuti vai para Edival Lourenço


Registro aqui o estudo de Ricardo Silva sobre o romance “Naqueles Morros, Depois da Chuva”, de Edival Lourenço, goiano e meu amigo.



Ricardo Silva
Especial para o Jornal Opção
Fazer comparações em literatura é sempre um risco que não gosto de correr. Não raras vezes costuma-se falhar vertiginosamente quando se faz isso. Mas às vezes é quase inevitável a comparação. Existem alguns autores que andam lado a lado na sua maneira de escrever, não importa qual seja o motivo. Outras vezes a comparação se dá de forma involuntária na cabeça do leitor, que vai traçando semelhanças entre essa e aquela obra. Mas não farei comparações, contudo acho que se faz necessário algum paralelismo, ainda que escasso, do último romance do escritor Edival Lourenço, “Naqueles Morros, Depois da Chuva”, com outros livros que possuem algumas semelhanças narrativas.

O bastardo filho de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, narra a saga de Luís de Assis Mascarenhas, governador da província de São Paulo e Minas de Goyazes, que está indo para o Arraial de Santana com a função de fazer com que a Minas de Goyazes tenha autonomia administrativa. A viagem é pontuada por acontecimentos insólitos e alguns um tanto quanto sinistros, que vão dando à narrativa uma eloquência que não nos deixa perder o interesse pela história que está sendo contada. Mesmo diante de todos os percalços do cerrado, de todos os contratempos que permeiam a viagem, a comitiva chega ao seu objetivo, com uma recepção acalorada e fogosa dos moradores de Arraial de Santana. Um passo dado para mais uma página da história do Brasil.

O romance de Edival é histórico, mas diferente do enfado que alguns autores desse tipo de romance nos colocam. Ele não apresenta a linguagem monótona que costumeiramente se esforça em mostrar que a pesquisa foi feita, colocando dentro da narrativa uma quantidade maçante de informações de cunho muito mais acadêmicas do que literárias. A escrita de “Naqueles Morros, Depois da Chuva” está muito longe desse estereótipo. Não que a pesquisa do autor não tenha sido bem feita; ela foi, mas ele soube dosar as informações de modo que a literatura e a história se diluíram para se tornarem uma mistura tão homogênea que não existe possibilidade, dentro da trama edivalina, das duas serem separadas, porque, caso isso ocorra, todo o enredo ficará descambado. Dentro dessa acepção, o romance foi milimetricamente bem construído. A reconstituição histórica feita pelo escritor goiano é de um fôlego soberbo. O leitor pode ver todo o ambiente, o cerrado, no qual estão a caminhar a comitiva de Dom Luís, com seu calor infernal, sua aridez, seus caminhos tortuosos. E, além disso, os costumes e hábitos deste rincão são descritos com precisão, seja na figura dos padres, dos personagens mais diagonais, ou ainda na imagem do próprio narrador, que talvez seja o espelho mais claro de como se pensava naquela época.

Retomando as primeiras linhas, o livro dá a possibilidade de se fazer um paralelo com algumas outras obras que seguem essa linha de um narrador que conta uma história para um interlocutor que não aparece nunca, acentuadamente os livros “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e “Sargento Getúlio”, de João Ubaldo Ribeiro. O romance de Edival lembra em certos aspectos esses outros dois romances. Vale frisar que o escritor goiano não tem, em termos da estilística, nenhuma semelhança nem com o escritor mineiro e nem com o baiano. As semelhanças ficam adstritas à montagem da história e o apelo linguístico aflorado. Contudo as diferenças são cabais: os romances de Ubaldo e Guimarães são quase uma espécie de complementação um do outro. Talvez a grande distinção seja a ambientação e o tamanho dos enredos, além do  fato de que no livro de Ubaldo há divisão de capítulo e o de Guimarães consta apenas de um grande monólogo. Sem contar que os narradores são meio “destrambelhados” em suas coloquialidades. Já no livro de Edival o narrador, mesmo sustentando um ar de jagunço, é visivelmente autodidata: sensível, refinado, com altas doses de sarcasmo e erudição, inclusive com citações em latim. É um sábio das coisas da cidade e do sertão.

Além do narrador peculiar, “Naqueles Morros, Depois da Chuva” tem um ritmo narrativo que dá conta perfeitamente da descrição de uma viagem: ora rápido, ora lento, assim mesmo, na velocidade do caminhar da comitiva, com capítulos curtos e outros mais longos. Ritmo magistralmente concebido para dar conta do enredo. Ponto relevante também se dá no fator linguagem. O livro de Edival é uma verdadeira proeza neste aspecto por não se prender a um regionalismo pueril e nem deixar que a escrita seja anacrônica para um leitor sem familiaridade com o vernáculo. Acerta em cheio quando resolve descrever as paisagens num tom poético, numa linguagem que é da época, mostrando mais uma vez que sua exaustiva pesquisa foi bem executada. Sem dúvida ele deve ter lido uma quantidade considerável de documentos de cronistas de viagem, para poder fazer com que a narrativa tivesse esse ar barroco, dando verossimilhança aos termos empregados, o que faz o leitor sentir-se numa viagem espaço-temporal para a época retratada. Uma sacada de um ótimo escritor, que não se perdeu no meio do caminho linguístico, que soube preparar um bom romance.

Depois de quase 20 anos da publicação do genial “Centopeia de Néon”, Edival Lourenço volta ao gênero romance com fôlego novo (em cada romance existe um escritor diferente), confirmando sua importância dentro do cenário literário nacional; e mostrando sua perspicácia narrativa, sua inteligência linguística, seu esmero ficcional. Sendo o primeiro de uma já planejada trilogia, “Naqueles Morros, Depois da Chuva” é um grande romance, que retrata com letras únicas uma parcela importante da história do nosso país; um romance construído sobre o signo da meticulosidade (tão característica da obra de Edival Lourenço), que arrebata seu leitor, me perdoe o clichê, da primeira a última página, sempre com aquele desejo de que cada página se multiplique em outras.

Leia um trecho de “Naqueles Morros, Depois da Chuva”
Algumas testemunhas — e em terra infestada de vadios desvalidos o que não faltam são testemunhas, dessas que a tudo veem, desde o cão chupando mangaba de cócoras na sombra do pé, até crime de quebra-cabaço nos escurinhos detrás da igreja — algumas testemunhas afirmaram ter visto o índio vagal esticar-se para os lados da banda sul, com fúria de água de represa derruída no afã de voltar a ser ribeirão, com tal velocidade que se ele usasse camisa e a dita camisa fosse de estampa xadrez, em sua fralda se poderia jogar dama ou gamão. De posse dessa informação providencial, ato contínuo a patrulha-diligência se volta para os lados da banda norte com ares de quem executa uma astúcia bilontra, a insinuar que, se o índio permitiu ser visto exalando-se para o sul, é por artimanha da mais deslavada.
É só um meio de implantar despistes e ir indo para o norte sem quaisquer embargos de perseguição. Mas, no fundo, sabem de sobejo aqueles improvisados milicianos, pois, mesmo sendo improvisados, estrabulegas é  que não são, que é mesmo para o sul que o índio do corso terá vazado, até se coagular em tocaias ou diluir-se no azul das distâncias. Só que procurá-lo no lado contrário é, com certeza, quase zero o risco que se corre de também ter o peito fubecado pelo trespasse de outra flecha iracunda embebida de erva malina e vir a morrer de jeito horrível, que nem o elemento da comitiva do capitão-general, aos estrebuchos, seguido de asfixia, como que enforcado de dentro pra fora.

É só no finalzinho da tarde, com a boca da noite já engolindo os últimos fiapos de salivas de sol, sem luta corporal, sem um disparo de um tiro sequer, sem uma porretada que seja, que os cinco bate-paus gaiatos e morrinhentos vêm retornando. Não trazem o índio por inteiro, nem aos pedaços, nem uma orelha, nem um dedo, uma nesga de couro do lombo, o aro do botoque ou do fiofó que fosse, passado numa embira ou num talo de ramo à-toa. Nem ao menos notícias quentes do dito corso eles trazem. Nada. Porém exibem, nos tocos de cara sem-vergonha, um certo ar de dever cumprido e cansaço meritório, enquanto manifestam uma opinião deveras convicta: num raio de légua e meia, pelo menos, o bugre meliante e assassino cujo foi encontrado é nenhum. Por isso mesmo, com base nesse relatório de negativas, o chefe da segurança local, sem pudores nem negaceios, apõe garatuja ao rodapé de proclama formal que um secretário escrivão logo manuscrita, dando conta, por dedução, de que, nesse raio, por tirocínio da polícia e graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, tudo está dominado.
Ricardo Silva é escritor.

sábado, outubro 20, 2012

André de Leones e a infância



Nesta manhã de sábado, enquanto aguardo o dia se ajustar ao horário de verão, repasso rapidamente o romance Dentes negros, de André de Leones. As imagens inseridas ao texto do livro, a busca de raízes, o percurso dos personagens num movie road, remetem-me a algumas reflexões da minha infância.
Mas ainda não será desta vez que irei abordar criticamente um livro de André de Leones (e já abordando!). Estas palavras é mais para dialogar comigo mesmo.
Talvez por sermos de Silvânia, prazerosa cidade histórica de Goiás, e eu e sua mãe termos vivido uma juventude de íntima e construtiva amizade, tive o privilégio de ter sido um dos primeiros leitores de um livro dele. Livro inédito, de poesia. Ele já vivia sua inquietude e sua busca, rumo à maturidade. Lembro-me de nosso encontro na casa de minha irmã.
Em Dentes negros, os personagens, mesmo apregoando que não tiveram infância, vão rememorando pequenos fatos, que não deixam de ser a formação de uma geração: a do próprio André de Leones, que perdeu a intimidade com ruas raízes para ativar a intimidade com o humano. Basta ver que as imagens integradas ao texto não trazem nenhum vulto de ser vivo. O que já comprova a mudança do formato de as gerações formarem as imagens da infância: os locais destas imagens de André de Leones, para mim, sempre aparecerão povoadas de pessoas, pássaros e outros animais da infância. E da própria maturidade, quando de meus retornos a estas paisagens. Acredito que eu não conseguiria flagrar estas paisagens de Dentes negros esvaziadas de humanidade. O esvaziamento das figuras da infância é um dos fatores da produção de rancor. Por isso eu digo que todas as contradições de minha infância e de minha juventude estão resolvidas: o bulling, a pobreza, a exploração do trabalho infantil, tudo. Insito: tudo isso está integrado à minha aprendizagem de nacionalidade e de minha própria personalidade.
A geração que veio com o surgimento da “geração tela” (só para usar da sabedoria de Harold Bloom) que é a de André de Leones , não tiveram e não terão a mesma formação das gerações anteriores. Aí as dificuldades de os personagens de Dentes negros se identificarem com o passado.  Dentro da velocidade, com espaços que sempre estão se modificando, sobra muito pouco tempo para a geração tela se deter no homem com contato visual e físico.
Dentes negros, e espero que assim seja com todos os futuros livros de André de Leones, é de temática atual, oportuno e que merece ser adotado nas escolas goianas, para que a juventude se veja e, assim, veja se é isto mesmo que quer. Só um autor desta geração que agora se forma para registrar as contradições do homem novo que vai se formando no país. A minha já está muito distante da infância para se aborrecer com as próprias origens, mas que mantém a esperança e a luta para que o homem do Planeta, do Brasil, das pequenas cidades silvanienses vá se formando com dignidade e ética, satisfeito consigo e com a nacionalidade.

sábado, setembro 29, 2012

Um autor resgatado


Um autor resgatado



Indicação do último livro do poeta goiano José Godoy Garcia para o vestibular da UFG é a chance de novas gerações conhecerem um conjunto de versos praticamente esquecido

Rogério Borges




José Godoy Garcia 
Seu nome não é muito conhecido fora dos círculos literários e o número de seus leitores, infelizmente, ainda é restrito. Quem gosta de boa poesia, porém, deveria ler os versos de José Godoy Garcia, poeta que nasceu em Jataí em 1918 e depois se radicou em Brasília, onde morreu há mais de 10 anos. Os candidatos aos dois próximos concursos vestibulares da Universidade Federal de Goiás terão essa chance. Um dos livros indicados para a prova de Literatura Brasileira é Poesia – Antologia do 50º Aniversário de Poesia, livro lançado pelo escritor em 1999 e que viria a ser o último que publicaria. “A escolha deste livro também serve para trazermos de volta um autor muito importante”, diz o professor da Faculdade de Letras da UFG Jamesson Buarque, que integra a comissão encarregada de selecionar as obras literárias do vestibular da instituição. “Ele é muito representativo da poesia goiana e brasileira em um longo período de tempo”, argumenta.
O livro indicado é uma antologia e em entrevistas que concedeu na época do lançamento, José Godoy Garcia disse que a edição era um apanhado completo de seu trabalho. Seu primeiro título, Rio do Sono, foi publicado em 1948 e causou certo frisson, ganhando a Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos. Era uma poesia inovadora e bem acabada, que chamou a atenção de leitores e de outros autores.
Foi neste mesmo ano que Godoy Garcia se formou em Direito em Goiânia, já pensando em dar prosseguimento a uma formação mais sólida que se consolidaria no Rio de Janeiro, onde teve contato com autores de uma geração herdeira do Modernismo, como Lúcio Cardoso e Rubem Braga. O primeiro vindo de Minas Gerais e o segundo do Espírito Santo, eles identificaram naquele autor goiano uma espécie de solidariedade artística e compartilharam talento e visões de mundo, cada um em seu nicho e estilo. É interessante perceber que o nome de José Godoy Garcia, ainda que pouco mencionado por aqui, não é esquecido em outras partes.
Em vários dicionários e antologias sobre poesia brasileira, Godoy Garcia figura com razoável destaque. Uma de suas marcas nos 12 livros que publicou – incluída aí a antologia que acaba de ser indicada para o vestibular da UFG – é a preocupação social de seu trabalho. Não é uma poesia panfletária e eminentemente política, aproximando-se mais do estilo da poesia social de um Carlos Drummond de Andrade, embora haja entre eles enormes diferenças em vários outros aspectos.
Prova dessa preocupação que Godoy Garcia sempre dedicou aos mais pobres é seu engajamento político, algo também visível no campo do direito. Sempre gostou de defender gente que não teria como pagar honorários de um advogado. Era também um ativo militante político, sempre pronto a denunciar mazelas sociais, por meio da literatura ou não. O autor conseguiu chegar ao delicado equilíbrio de falar desses dramas sociais sem perder a mão de sua poesia.
Alguns de seus poemas em que isso fica mais demonstrado falam de Brasília e sua construção. Em uma espécie de narração poética, ele descreve, sob ângulos pouco usuais, os perrengues pelos quais os chamados candangos, os trabalhadores que vieram de todo o Brasil para erguer a nova capital federal, passavam. Ao invés de levantar bandeiras contra a exploração, Godoy Garcia, habilmente, descrevia, com muita ludicidade, o cotidiano dessa gente que, por muito tempo, foi simplesmente ignorada no processo de desenvolvimento do País. É um olhar menos usual, que surpreendeu muitos e revelou um homem atento ao mundo à sua volta, indo dos grandes temas às mais singelas homenagens.
O escritor viveu sua juventude em Goiânia, passou temporadas no Rio, mas foi em Brasília que amadureceu sua escrita. Para lá se mudou em plena construção da cidade e de lá nunca mais saiu. É hoje considerado um dos seus melhores tradutores.
Além de poeta, José Godoy Garcia também foi um grande cronista e um ficcionista elogiado. Seu segundo livro é um romance, chamado O Caminho de Trombas e publicado em 1966, já pelo prestigiado selo Civilização Brasileira. Este é um livro emblemático, pois o autor, já no regime militar, elabora uma forte denúncia social, mesclando invenção com fatos reais relacionados a conflitos agrários no interior brasileiro. A luta de classes fica muito evidente em seu imaginário, equivalendo ao seu comportamento no cotidiano.
Godoy Garcia foi um ativista do Partido Comunista Brasileiro, defendendo judicialmente muitos de seus membros, e era um marxista convicto. Seu terceiro livro, Araguaia Mansidão, foi posto no mercado pela Editora Oriente, de Goiânia, em 1972. Nesta época, já era um nome conhecido também no jornalismo e sua verve polemista era respeitada em uma Brasília que vivia os anos de chumbo da ditadura.
Ele ainda publicaria dois títulos de poesia pela Civilização Brasileira – A Casa do Viramundo e Aqui É a Terra, ambos de 1980 – até se mudar para o selo Thesaurus, de Brasília, que editaria seus últimos livros. Por esta editora, ele publicou os volumes de poemas Entre Hinos e Bandeiras (1985), Os Morcegos (1987),Os Dinossauros dos Sete Mares (1988) e O Flautista e O Mundo Sol Verde e Vermelho (1994), o volume de contos Florismundo Periquito (1990) e o trabalho de crítica Aprendiz de Feiticeiro (1997). Também foi a Thesaurus que encampou o projeto de colocar em catálogo a antologia da obra poética do escritor. Por ser um livro de pouca circulação, a UFG entrou em contato com o selo e obteve a garantia de que mais exemplares seriam impressos para atender a demanda dos vestibulandos pela obra. José Godoy Garcia morreu em Brasília em 2001, vítima de um ataque cardíaco.
Fonte : O Popular

sábado, julho 16, 2011

Novamente Alaor Barbosa

Caminhos de Alaor

Manoel Hygino dos Santos

HOJE EM DIA, Belo Horizonte, quarta-feira, 13 de julho de 2011.

Entre meus amigos-escritores, está Alaor Barbosa, autor de muitos e bons livros, alguns com lançamento no exterior mesmo antes de chegar às livrarias brasileiras. Goiano, membro da Academia de Letras daquele Estado, colaborador de revistas e jornais, redator de alguns dos mais prestigiosos diários brasileiros.
É de posições e decisões. Foi assim e assim continua. Autor de uma preciosa biografia de Guimarães Rosa, viu o trabalho proibido de circulação, por iniciativa de herdeiros do notável ficcionista de Cordisburgo. O processo paira na Justiça.
Quando a Academia Mineira de Leras, na gestão de Murilo Badaró, resolveu - em comemoração ao centenário de Rosa - promover uma série de conferências, lá estava Alaor para tema tão oportuno e relevante. Foi um sucesso. Aproximou-se de Nélson Hoffmann, amigo comum, gaúcho da fronteira com a Argentina, advogado, professor e conceituado ficcionista.
Sabendo, que aquele seria homenageado emprestando seu nome a um centro cultural, Alaor não se intimidou com a distância. Partiu de Brasília e lá foi para as margens do Rio Uruguai para associar-se à manifestação de apreço e respeito ao homem e à sua obra.
Para este Alaor a que me refiro, não há distâncias ou quaisquer outros obstáculos. Vai até onde acha que deve, faz o que lhe parece necessário. Assim é também na produção jornalística, nos artigos e nos ensaios, nas palestras, onde julga que a sua participação é conveniente, combatente e incansável.
Não sem razão Wilson Martins, crítico literário dos maiores que o Brasil teve nos últimos cem anos e recentemente falecido, situou Alaor Barbosa ao lado de Balzac, Thomas Hardy, Eça de Queiroz, Dostoievski, Graciliano Ramos e Giovanni Verga. Só isso já constituía um atestado de competência e prestígio.
Para Mário Jorge Bechepeche, autor de "O Senso da Obra Aberta na Literatura e o Modelismo Conjuntivo da Atualidade", Alaor é "daqueles autores cujo conjunto da obra forma um alentado e luminar panorama literário". Em análise da obra de autor nascido na interiorana Morrinhos, Bechepeche acha natural que autores de produção intensa em volume cheguem a construir um panorama, um verdadeiro universo de caracteres que se destacam, por englobarem, em muitos livros, uma particularidade geral. No autor de Goiás, prepondera a imagem de Imbaúbas, a cidade do interior que seria como o espelho da Morrinhos natal.
"Com o ícone Imbaúbas campeando em toda sua obra e até título de uma delas, arrola (Alaor) uma transcedência estética e antropológica que estabelece um mundo de características formando uma dicção, uma expressão do "modus vivendi" do mundo do sertão agreste, rústico, bravio, inculto. É um carimbo dos mais importantes em seus textos, igualmente auspicioso e magistral para a Literatura Brasileira". Para o crítico, no confronto de faces sociais, vê-se que Alaor Barbosa deu universalidade ao Sertão", como gênio das letras e do pensamento. Basta isso.

domingo, maio 29, 2011

BARTOLOMEU ANTÔNIO CORDOVIL

Este é talvez o primeiro grande poeta goiano, mas escreveu muito pouco. Deixamos um poema dele (talvez o primeiro poema importante feito em Goiás, por volta de 1800, ano de falecimento do autor)

BARTOLOMEU ANTÔNIO CORDOVIL
(pseudônimo de Antônio Lopes da Cruz)
(1746—1810)

Nasceu no Rio de Janeiro em 1746. Conforme alguns autores, ele teria nascido em Ouro Preto, Minas Gerais e de lá foi para Goiás. Esta versão contraria o próprio testamento de Bartolomeu Cordovil, que declarou ter nascido no Rio de Janeiro. Advogado pela Universidade de Coimbra (Portugal). Chegou em Goiás em 1783, como primeiro professor de Gramática Latina, nomeado pelo Governador Tristão da Cunha Menezes, em 1788, a quem dedicou o poema Ditirambo. Lecionou 12 anos no arraial de Meiaponte (hoje Pirenópolis), onde faleceu em 1800. Escreveu, entre outros poemas, "Ditirambo”, “Epístola”, “Às Ninfas", "Epístola aos Árcades do Rio de Janeiro", “Ode”, e “Proteu e Sonho”. Publicou, em Coimbra, uma tradução da Arte Poética, de Horácio. Foi descoberto como um dos primeiros poetas do território goiano em uma palestra de Waldir Castro Quinta.


DITIRAMBO

Ninfas goianas,
Ninfas formosas,
De cor de rosas
A face ornai.
Vossos cabelos
Com muitas flores
De várias cores
Hoje enastrai.
Sim, Ninfas, aplaudi tão grande dia!
E tu, doce Lieu, Pai da Alegria,
Vem-me influir,
Que os anos de Tristão quero aplaudir.
Olá, traze do Feno
O suave licor grato e sereno;
Traze os doirados copos cristalinos,
Venham Falernos,
Venham Sabinos,
Deita, deita, enche o copo; gró, gró, gró:
Não entornes, espera, que este só
Não é que havemos
Hoje beber;
Mais vinho temos
Sem confeição,
Para brindar
O bom Tristão.
Hoje à sua saúde
Pretendo de beber mais de um almude,

Evoé
O’ Padre Leneu
Saboé
Evan Bassareu.

Néctar suave, o’ quanto me consolas!
De mim se ausentem
Rixas, temores,
Penas e dores.
Venha outro copo de Baco espumante
Que ferva no peito,
E a mente levante.
Nos Lusos Fastos não se leia agora
Dos seus Maiores a brilhante história:
Com alheias ações não condecora
A sua alta memória
O bom Tristão delícias dos humanos.
O curso dos seus anos
Cheio não são deste furor guerreiro,
Que nos campos de Marte desbarata,
Rende, saqueia, obriga, assola e mata;
Mas esperem, que escuto!
Vejo os troncos bolir! Ah sim, bem vejo
Os Sátiros brincões, Faunos auritos,
Que cheios de desejo,
Saltando aos ares vem ruidosos gritos,
Os Caprípedes Deuses que diriam?
Se não me engano, em sua companhia
Vem Bistânidas Trácias ululando,
Agitadas na rúbida ambrosia,
Em coréas sincinas volteando,
Estas doces cantigas modulando :
Goianos louvemos
Tristão imortal,
Bebamos, dancemos,
Ausente-se o mal.
Os doces licores
Do bom Nictoleu
Em taças se entornem
De claro cristal.

Evoé
O padre Leneu
Saboé
Evan Bassareu.

Pois já que Tristão
De paz nos encheu,
Gostosos bebamos
O sumo de Oreu.
Traze, traze depressa o Peramanca,
Empine-se a botelha toda inteira.
Mas que chama ligeira,
Ao modo de uma tropa,
Pelas túmidas veias me galopa?
És tu, Brômio gostoso? Eu bem te entendo.
Bebamos mais aquele, que das ilhas
Me mandaram de mimo
Do Profundo Oceano as verdes filhas.
No licor forte o coração me nada,
Baco, Baco, evoé!
O que terei nos pés? eu cambaleio?
Caindo estou de sono:
Depois que esvaziei quatro botelhas,
Rúbidas tenho e quentes as orelhas,
O nariz frio, os braços estendidos,
Parece-me que gira a casa toda.
Já não posso suster-me; aos ouvidos
Sinto um leve sussurro:
O corpo tremelica, o chão me falta,
E julgo que esta casa está mais alta.
Como o teu elixir
Tão depressa, ó Leneu, me faz dormir?!
Agora eu queria
Cantar do bom Tristão
O seu cândido gênio,
O terno coração,
A presaga prudência,
A profunda modéstia,
A serena clemência,
A justa temperança,
Agora é que me fazes tal mudança?

Evoé
O’ padre Leneu
Saboé
Evan Bassareu.

Venha um corpo, dous copos, três copos,
Retinem nos ares
Mil brindes contentes.
E os povos ardentes
De suma alegria,
Nas aras do gosto
Com férvido mosto
Entoem gostosos
Sem mais dilação
Os anos ditosos
Do terno Tristão.

Evoé
O’ padre Leneu
Saboé
Evan Bassareu.

Sim, do grande Tristão tantas virtudes
O povo todo louve,
O neiva lhe dará muitos almudes
Deste espírito rubro,
Que colhe no Minho,
Que os pesares desvia,
Que o sono concilia,
Que alegra a mocidade,
Que faz vermelha a envelhecida idade.

Evoé
O’ padre Leneu
Saboé
Evan Bassareu.

Ercilia Macedo-Eckel

Na página que mantem na internet, Ercilia Macedo-Eckel — num estudo sobre a escritora Ada Curado, apresenta um pequeno resumo da evolução histórica da cultura em Goiás. Por este estudo, podemos ver como a cultura goiana é nova, se comparada à cultura europeia e mesmo com a brasileira. O desenvolvimento goiano é muito novo. Tomo a liberdade de reproduzi-lo abaixo:

"
2 Períodos da vida cultural de Goiás (seu Estado de opção)
A esquematização a seguir obedece aos critérios: cronológico, político e determinados por acontecimentos sociais e culturais (25: p. 29-32, com pequena alteração no que se refere ao 6º Período).
2.1. 1º Período: de 1726 a 1830 – Do início da história de Goiás à publicação do Matutina meia-pontense (Pirenópolis), com o predomínio da mineração e sua substituição pela pecuária e agricultura, o surgimento das primeiras cidades e o aparecimento das primeiras aulas e com elas o de nosso primeiro poeta: Antônio Lopes da Cruz (sob o pseudônimo de Bartolomeu Antônio Cordovil) com o poema Ditirambo às ninfas goianas (1790).
2.2. 2º Período: de 1830 a 1903 – Da publicação do Matutina meia-pontense à instalação da Academia de Direito de Goiás (24-2-1903), a que se seguiu a fundação de uma Academia de Letras (1904), de curta duração. Nesse período ocorreu também a fundação do primeiro jornal, o quarto do País, e semente para o jornalismo de idéias abolicionistas e republicanas. São desse período a criação do Liceu de Goiás (1847) e do Gabinete Literário Goiano (1864). Estética predominante: transição clássico-romântica, com predomínio do Romantismo nos fins do século XIX e início do XX.
2.3. 3º Período: de 1903 a 1930 – Da instalação de nosso primeiro curso jurídico e da Academia de Letras à Revolução de 1930, de que resultou a nova capital do Estado (,o casamento da autora em estudo com o Coronel Gentil, sua vinda para Goiás como “lugar de opção” e aproveitamento do assunto para temas de sua ficção). Estética: novas ideias parnasianas e simbolistas começam a tomar conta dos escritores, fechando-se o período com o predomínio do Parnasianismo. Mas o livro Ontem (1928), de Leo Lynce, marca o início do Modernismo em Goiás, no fim desse período.
2.4. 4º Período: de 1930 a 1942 – Da Revolução de 1930 que modificou as estruturas político-administrativas do País e motivou em Goiás a fundação de Goiânia (5-7-1942), quando se iniciou a publicação da revista Oeste, órgão de orientação política da época. Estética: de transição. É o pré-modernismo em Goiás, incluindo-se a adoção do verso livre.
2.5. 5º Período: de 1942 a 1960 – Da publicação de Oeste e do batismo cultural de Goiânia à inauguração de Brasília que, pela proximidade, resultou em maior incremento econômico e intelectual para Goiás. Acontecimentos importantes: criação da Bolsa “Hugo de Carvalho Ramos” (1943), visando à publicação de obras literárias ou científicas de autores contemporâneos residentes no Estado, I Seminário de Arte de Goiás (julho de 1956) e a criação das Universidades Católica (1958) e Federal (1959). Eu fiz o vestibular para a primeira turma de Letras da Católica.
Estética: inspirada em Manuel Bandeira, Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade. É considerado um período importante das letras goianas, na poesia e na prosa. Na poesia, principalmente pela chegada dos primeiros livros de Gilberto Mendonça Teles: Alvorada (1955) e Estrela-d’alva (1956). No primeiro, identificou-se com parnasianos e simbolistas. No segundo, além de traços simbolistas, há prenúncios do Modernismo (p. 30 e 31).
Derrubada a Ditadura e finda a Guerra Mundial, agitam-se os escritores brasileiros, em vários Estados. Em Goiás a consequência imediata foi a criação de uma secção da Associação Brasileira de Escritores (1945), a realização do I Congresso Nacional de Intelectuais (fev./ 1954). Um dos temas: “Problemas éticos e profissionais dos intelectuais”.
Ada Curado participou desse evento, juntamente com outros escritores do Estado, como Eli Brasiliense, Jose Godoy Garcia, José Xavier de Almeida e Bernardo Élis. Também estavam presentes expoentes das letras nacionais e internacionais, como Pablo Neruda. Logo a seguir, Ada publicou O sonho do pracinha e outros contos (1954) e Morena (1958).
São dessa fase os romances O tronco (1956), de Bernardo Élis, Élos da mesma corrente, de Rosarita Fleury e a circulação de um jornal literário, Jornal Oió, entre 1957 e 1958. O grupo Os quinze (fev./ 1956), dos novos, divulgava suas idéias no suplemento literário da Folha de Goiaz, através de Jesus Barros Boquady.
2.6. 6º Período: 1960 à atualidade (1991) – Dos reflexos econômicos, intelectuais e políticos pela proximidade de Brasília aos dias de hoje. No início da década (1962) surgiu o discutido GEN (Grupo de Escritores Novos) que culminou com a publicação de Poemas do GEN (1966) e a vinda Mário Chamie, o instaurador da Práxis, a Goiânia. Aqui ele proferiu palestras e manteve contato com intelectuais e assistiu a uma Exposição de poemas práxis realizada pelo GEN no seu 5º aniversário (1967). Desse grupo, considerado, na época, de oficio não muito sério, o tempo e a persistência permitiram os seguintes frutos em nossas letras: Miguel Jorge, Helena Chein, Heleno Godoy, Carlos Rodrigues Brandão, Luís Fernandes Valadares, Manuel B. de Brito (Prof. Nequito), Coelho Vaz, Yeda Schmaltz, dentre outros.
Em 1964 Gilberto Mendonça Teles publica o estudo e antologia A poesia em Goiás pela Universidade Federal, obra premiada em concurso de 1962. E publicação de grande valor para quem estuda a literatura feita em nosso Estado. Ainda a Universidade Federal de Goiás edita (1963) seus (dela) Cadernos de Estudos Brasileiros. Outros acontecimentos importantes: Inaugura-se a Televisão Anhanguera (1963), com espaço para escritores e artistas. O jornal O popular (final de 60/ início de 70) mantinha um caderno, o “Suplemento Cultural”, com grande espaço para as letras e as artes em geral. João Bênio dá início às atividades cinematográficas com o lançamento dos filmes O diabo mora no sangue (1969) e Simeão o Boêmio (1970). Na década de 80 Cora Coralina tem repercussão nacional com Poemas dos becos de Goiás e estóricas mais (1980) e Vintém de cobre: meias confições de Aninha (1983). É no 6º Período que Siron Franco e outros goianos são reconhecidos nacionalmente.
Nesse quadro da vida cultural, mais especificamente, de Goiânia hoje, não poderíamos esquecer o papel da Galeria Casagrande como aglutinadora de intelectuais e artistas da sociedade local, juntamente com o empenho da Função Jaime Câmara, dentre outras.
Nesse período, Ada Curado pinta esporadicamente: Vaso de flores (1984) e Casal de garças (1989) descoravam sua biblioteca. Há, também, alguns poemas em quadro ilustrados por sua filha Ceci, como “Expectativa” (9: p. 42) e por outros artistas.
Com o final do “regime militar” (1985), creio eu, poderíamos iniciar o 7º Período da vida cultural em Goiás. "

quarta-feira, março 02, 2011

Literatura goiana : um panorama histórico

Brasigois Felício

Uma síntese da literatura goiana (ou da literatura brasileira feita em Goiás, como muitos preferem) para ser justa, tem de começar pelo reconhecimento, sem ranço de ufanismo, da expressividade e qualidade do que aqui se escreve e publica. Tal fato é reconhecido por críticos de nomeada, de grandes centros culturais – não obstante o nariz arrebitado de jactância e vanglória, de alguns intelectuais, encastelados nas torres de marfim até de universidades públicas – os quais insistem em amesquinhar sua importância, e não reconhecer tal qualidade. Tal provincianismo, porém, não conseguiu impedir que se firmassem como escritores de prestígio nacional, e mesmo internacional, escritores como Hugo de Carvalho Ramos, Bernardo Elis, José J. Veiga e Cora Coralina.

Depois de quase um século do descobrimento (ou achamento) das minas auríferas na região onde os bandeirantes paulistas construiriam Vila Boa, quase nada se escreveu por estas paragens do Goyaz profundo, a não ser os depoimentos de viajantes que andaram pela província, deixando relatos importantes, como os deixados por Cunha Mattos e Alencastre. De cunha Mattos até hoje se impõe, por sua verdade e atualidade, uma frase de sabor picante: “Em Goyaz as pessoas batem mais com a língua do que com as armas”. Gilberto Mendonça Teles, poeta, professor e crítico literário, assinala, em sua importante obra A poesia em Goiás, que a história de nossa literatura se divide em seis períodos. O primeiro coincide com o descobrimento de Goiás até 1830, quando publica-se o primeiro jornal da província, A matutina Meiapontense.

Em obra intitulada “Literatura goiana – síntese histórica”, que escreveu quando proferiu palestra sobre literatura goiana, no Canadá, o acadêmico Geraldo Coelho Vaz atesta que o primeiro poeta brasileiro a se referir a Goiás usava o pseudônimo de Antonio Cordovil. Seu verdadeiro nome era Antônio Lopes da Cruz, que escreveu o Ditirambo às ninfas goianas – em verdade, usou as musas e ninfas como pretexto para bajular o governador Tristão da Cunha Menezes, que o nomeara como professor. Uma moda que pegou entre nós, entre escribas maiores e menores.


O segundo período vai de 1830 a 1903, da publicação do primeiro jornal goiano à instalação da Academia de Direito de Goiás, e a fundação da Academia de Letras, na cidade de Goiás, sede da capital da Província. “Em quase um século, muitos acontecimentos marcaram a vida cultural do Estado. Ainda no século XIX, foram criados o Liceu de Goiás e a primeira biblioteca pública, o Gabinete Literário Goiano, o Teatro São Joaquim, o seminário Santa Cruz, onde se formaram notáveis personalidades da vida cultural de nosso Estado. Bernardo Guimarães, importante romancista, reside em Catalão, na condição de Juiz de Direito nomeado.

O primeiro livro impresso, já em 1863, foi Viagem ao rio Araguaia, de autoria de Couto Magalhães, então governador. O vulto literário mais importante desta época é o poeta romântico Antônio Félix de Bulhões Jardim (1845-1887), que defendia ideais abolicionistas. Outros nomes importantes do período foram os poetas Higino Rodrigues (1869-1906), autor do famoso soneto A pinta preta, Manoel Lopes de Carvalho Ramos (1865-1911), autor do célebre poema Goyania, e mais Edmundo Xavier de Barros, Alceu Victor Rodrigues, Genuíno Correa, Matias da Gama e Silva e Augusto Eliseu.

O terceiro período da evolução histórica de Goiás, assinala Coelho Vaz – inicia-se com a instalação do curso da Academia de Direito, a fundação da Academia de Letras e a revolução de 1030. A publicação do livro Ontem, de Leo Lynce, marca o surgimento do modernismo em Goiás, com atraso de seis anos, em relação à Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em 1922. O mais expressivo e talentoso autor deste período foi, inegavelmente, Hugo de Carvalho Ramos, autor de Tropas e boiadas.

Em estilo regionalista que provocou impacto, logo após sua publicação, este autor goiano mereceu saudação entusiástica, por parte de Monteiro Lobato, e de outros escritores e críticos de sua época. Reconhecido como gênio literário, por parte da crítica, Hugo de Carvalho Ramos não conheceu a glória literária, pois que matou-se, ainda muito jovem, em meio a uma crise de depressão. Os nomes que marcaram este período foram, portanto, Hugo de Carvalho Ramos, com Tropas e boiadas e, na poesia, Leo Lynce, com Ontem, título contraditório, pois que colocava a longínqua paisagem do sertão profundo de Goiás no cenário da modernidade literária brasileira.

O quarto período é a fase da transição literária, encontrando as mais variadas influências das escolas romântica, parnasiana, simbolista e moderna. É o período das grandes mudanças, enfatiza Gilberto Mendonça Teles, em A poesia em Goiás. Neste período vêm à publicação obras de João Accioly Barro preto, Derval de Castro páginas do meu sertão e Pedro Gomes, com Pito aceso. A poesia teve reduzida importância nesta fase. O quinto período, para GMT, inicia-se em 1942, com o Batismo Cultural de Goiânia, e a publicação da revista Oeste, indo até a realização, pela União Brasileira de Escritores de Goiás, da I Semana de Arte em Goiás, realizada em 1956.


Fato de grande importância foi a criação da Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, que teve Bernardo Elis como seu primeiro ganhador, com a obra Ermos e gerais. Em 1954, realizou-se em Goiânia o I Congresso Nacional de intelectuais, com a presença de personalidades conhecidas, de outros países, como o poeta Pablo Neruda. Lamentavelmente, Gilberto Mendonça Teles não atualizou seu livro A poesia em Goiás, quando da publicação de sua segunda edição, deixando assim de registrar um número expressivo de poetas, surgidos a partir de 1970. Muitos deles ganharam concursos de nível nacional e mesmo internacional, firmaram-se como grandes poetas, mas não estão referidos na segunda edição desta obra, o que diminui sua importância histórica.


A implantação do modernismo literário brasileiro, iniciada com Leo Lynce, teve continuidade com as obras de Bernardo Elis, José Décio Filho, José Godoy Garcia, Afonso e Domingos Félix de Sousa, além do próprio Gilberto Mendonça Teles, um pouco mais tarde, como poeta e crítico de literatura. Uma de suas obras fundamentais é A poesia em Goiás, além de Saciologia goiana (poesia) e obras de referência, no gênero ensaio, estudando os manifestos da modernidade literária, e a poesia de Carlos Drummond de Andrade. Neste período destacaram-se também o romancista e contista Eli Brasiliense, com “Chão vermelho” e “Pium”. Bariano Ortêncio estreou em 1956, com O que foi pelo sertão. Ficcionista, cronista e folclorista, Bariani Ortêncio é uma das mais destacadas personalidades literárias de Goiás.

Marcam ainda este período autores como Ursulino Leão, romancista, contista e cronista, sendo o romance Maya um de seus trabalhos mais aplaudidos. Outros autores também destacaram-se, como Pedro Celestino, Geraldo Ramos Jubé, Monsenhor Primo Vieira, José Lopes Rodrigues, Demóstenes Cristino, Basileu Toledo França, Regina Lacerda, Rosarita Fleury, Nelly Alves de Almeida, Jesus Barros Boquady, Getúlio Vaz, Mário Rizério Leite, Leo Godoy Otero e Ada Curado.

O sexto período da evolução de nossa literatura está em curso, em meio a grandes transformações em nosso meio sócio-econômico-cultural. A criação de duas universidades, e a Federal e a Católica (PUC), a fundação de Brasília, em 1960, representaram uma mudança no ambiente cultural. Surgiu o GEN (Grupo de Escritores Novos), propondo uma instauração estética intitulada de Práxis, por seu criador, o poeta Mário Chamie. Pontificaram neste movimento literário goiano escritores que viriam a se tornar representativos de nossa literatura, como Miguel Jorge, Heleno Godoy, Yêda Schmaltz, Carlos Fernando Magalhães, Luiz Araújo, Luiz Fernando Valadares e Geraldo Coelho Vaz.

A Editora Oriente, liderada pelos irmãos Taylor e José Oriente, publica centenas de títulos de autores novos e já consagrados. Surgem, neste período, nomes como Gabriel Nascente, Alaor Barbosa, Maria Helena Chein, Emílio Vieira, Eduardo Jordão, Ciro Palmerston, Marieta Telles Machado, Martiniano J. Silva, Brasigóis Felício, Delermando Vieira, Dionísio Pereira Machado, Salomão Sousa, Helvécio Goulart, Luiz de Aquino, Edival Lourenço, Helverton Baiano, Almáquio Bastos, Ubirajara Galli, Tagore Biram, Pio Vargas, Itamar Pires, Edir Meireles,Fausto Valle, Jaci Siqueira, Alice Spíndola,Ana Cárita, Diva Goulart, Kleber Adorno, Lygia Rassi, Ebert Vêncio, Celso Cláudio, Augusta Faro, Leda Selma, Maria Abadia Silva, Pedro Tierra, Edmar Guimarães e Valdivino Braz.

O Gen deu significativa contribuição à renovação e modernidade dos estilos literários, como assinalou a ensaísta Moema de Castro e Silva Olival, em seu livro Gen – um sopro de renovação em Goiás – editora Kelps 2000): “Foi, sem dúvida, um divisor de águas na vida literária de Goiás, um vento promissor: conhecer, discutir, confrontar para renovar.” Uma renovação colocada em xeque, pelo ensaísta Gilberto Mendonça Teles, que via no movimento de renovação praxista em Goiás um entusiasmo juvenil, sem consistência e maturidade. O tempo veio provar que o alarde feito em torno da dita “instauração práxis” era fogo fátuo (fogo de palha) de vez que os nomes do Gen, que vieram a se confirmar como nomes expressivos, deram, sim, uma contribuição notável, por sua participação no debate literário, mas as obras que escreveram posteriormente têm (felizmente) pouco ou nada a ver com a hermética proposta estética defendida por Mário Chamie. A confirmação como escritores veio de seu talento literário, não dos postulados estéticos defendidos com ruído e furor.

A criação da Fundação Cultural Pedro Ludovico, em substituição à Secretaria Estadual de Cultura deu maior impulso à literatura, com o Instituto Goiano do Livro, dirigido pela poetisa Yêda Schmaltz, criando coleções importantes, e instituindo concursos e oficinas literárias. A editora Kelps inicia intensa atividade editorial, publicando centenas de títulos de autores goianos, divulgando-os nas Bienais do livro, realizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na crítica literária destacam-se Gilberto Mendonça Teles, José Fernandes, Moema de Castro e Silva Olival, Maria Zaira Turchi, Vera Maria Tietzman e Darcy França Denófrio, dentre outros. Com três nomes consagrados, Bernardo Elis, José J. Veiga e Cora Coralina (sendo os dois últimos em nível internacional) Goiás tem notáveis personalidades na literatura, a exemplo de Paulo Nunes Batista, Valdemes Menezes, Braz José Coelho, Antônio José de Moura, William Agel de Mello, Gil Perini, Hilda Gomes Dutra Magalhães, Helena Sebba, Ercília Eckel, Adelice da Silveira Barros, Luiz Estevão, Francisco de Brito, Isócrates de Oliveira, Célia Coutinho Seixo de Brito, Anatole Ramos, César Baiochi, Hélio Rocha, Maria Terezinha Martins, Carmo Bernardes e Francisco Perna Filho.


* Brasigóis Felício é membro da Academia Goiana de Letras (cadeira 25) e vice-presidente da Ube-go (União Brasileira de Escritores, Seção de Goiás)

quarta-feira, outubro 06, 2010

Tagore Biram

Tagore Biram era pseudônimo de Ubiratan Moreira, em homenagem ao poeta indiano Rabindranath Tagore.

Ubiratan Moreira nasceu em 6 de janeiro de 1958, em Olho D´Àgua, antigo distrito de Anicuns (Goiás) e hoje município de Americano do Brasil.

Sua estréia literária foi em 1981 com o livro Flauta Noturna.

Em 1985, publicou Poemas do Amor e da Ausência e viajou para Moscou, como delegado do Festival Mundial da Juventude. Na União Soviética, participou do Encontro Internacional de Jovens Escritores. Fez recitais e falou sobre o Brasil.

Teve poemas seus traduzidos para o russo e publicados em Moscou.

Em 1986, criou e presidiu o Comitê Pablo Neruda de Solidariedade ao Povo Chileno.

Em 1987, conquistou, em Goiânia, o Prêmio Cora Coralina de Poesia, com o livro O Anjo Desafinado, seu divisor de águas poéticas.

Na década de 1990, transferiu-se para Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde viveu por vários anos e trabalhou como editor cultural (Caderno B, do Jornal do Brasil Central) e redator-criador em agências de publicidade. Conheceu o poeta pantaneiro Manoel de Barros e dele se tornou amigo.

Em 1996 mudou-se para o Chile e ganhou o prêmio literário Cidade de Concepción, onde publicou os livros El Enderezador de Vientos e Poesia Pasajera.

O poeta rebelde e saudoso de casa faleceu em Tirúa (Chile), em 13 de junho de 1998, dez anos depois da publicação de seu segundo livro, O Anjo Desafinado.

Em Campo Grande (MS), o auditório na sede da TV Educativa foi inaugurado com o nome de Tagore Biram. Em Tirúa (Chile) um centro cultural também leva seu nome. Quando morreu em 1998, Tagore Biram deixou, inéditos, os livros, Muro de Berlim e Poemas de Santiago, dos quais, até o momento, não se sabe o paradeiro. (Valdivino Braz)

Se fosse hoje, eu não teria deixado Tagore Biram cair tão facilmente. Mas nunca conseguimos impedir uma queda, pois, quando vamos notar, a derrota já alcançou a todos nós. Mas a história humana carece de algumas quedas precoces para termos presentes a nossa fragilidade. Também quanto mais intenso o fogo mais rápido o destroçar da madeira. E ele que seria uma renovação total da poesia goiana! Dois livros que editou foram suficientes para deixar um clarão intenso. Dormi uma vez no apartamento dele em Goiânia, e umas duas noites ele passou em minha casa. É do poeta Valdivino Braz — seu mais fiel amigo, tanto em vida como de sua memória — o texto que o apresenta, publicado recentemente no Jornal Opção . O poema “El rio Tirúa”, que se encontra numa página chilena, talvez tenha sido escrito no período final de sua vida, quando ele morava naquele país. (Salomão Sousa)