segunda-feira, julho 16, 2018

Itamar Pires Ribeiro




Determinados livros existem e, às vezes, como na fábula árabe “Os dois que sonharam”, temos de circular anos a fio até nos encontrarmos com eles. Circulei mais de 13 anos antes de me encontrar com o livro Das Palavras, de Itamar Pires Ribeiro, editado em 2000 após receber o prêmio Bolsa de Publicações Cora Coralina 1999. Durante a leitura, depois de encontrá-lo, eu saí emocionado de muitas de suas passagens, dos ritornelos de seus versos, que se repetem e repetem palavras:

Não suponhas que as rochas te ouçam
esculpe a estátua, e continuará a ser rocha
acrescida de sonho e trabalho humano, rocha.

Se Edival Lourenço faz premonições sobre a velocidade que o homem moderno vai assumindo na modernidade, a poesia de Itamar Pires Ribeiro, neste livro, se dá com serenidade, quase um cântico, quase um salmo em cada poema. É um diálogo amoroso do autor com o leitor e consigo mesmo. Basta ler a confissão da própria metapoética que Itamar faz da própria trajetória poética, que está no poema “As palavras — XVI”: 

“Se duendes, fadas,
deuses e demônios,
velhos mitos arcanos
infestam teu poema
arranca-os, arranca-os à faca,
joga fora as velhas tolices e vê:
tuas palavras vêm de onde vem tua semente,(...)
tua classe e teu tempo (...)”.

O poeta alastra em si o abandono de uma linha gótica que imperava na poesia goiana para irrigar-se com palavras humanas, que tornam este mundo real, rocha e lírio.
Neste livro, saiu enriquecida a poesia de Itamar Pires Ribeiro ao renunciar à poesia gótica, que conhecemos no Livro de Heitor, de 1990. Depreendemos que Das Palavras foi construído com espontaneidade num momento de iluminação. Das iluminações que construíram as Elegias de Duíno e alguns cantos de Friedrich Hölderlin. As iluminações permitem fraquezas, vazios, até mesmo incongruências construtivas. De repente uma vírgula faltou num verso que irá se repetir mais adiante, com a vírgula.
E não é só um livro carregado de questionamentos espontâneos, mas de construções de ágeis arranjos. Não aparecem rimas explícitas, versos escandidos, mas presente um constante andamento sem obstruções. É o que é a poesia. Cheio de referências, pois todo bom poeta é bom leitor. Shakespeare, na reconstrução “Resta o silêncio”. Konstantinos Kaváfis, na citação dos bárbaros. Carlos Drummond, na reconstrução da pedra no meio do caminho com a repetição exaustiva do verso “as coisas são mais obstinadas”, num poema de bela plasticidade e conteúdo.
As palavras, na construção do poeta, progridem de uma inutilidade para intervir nas coisas, com as rochas e lírios fluindo independente do homem e das palavras, para desaguar na necessária utilidade do cântico, onde as palavras, já organizadas, interferem no mundo. “Por teu cântico tudo se move”. Intervenção num crescendo:
Todas as falas humanas,
todas elas entrelaçadas
um sutil instrumento que nos anuncia.

Livro de rara sabedoria  acredito que divisor de águas na poesia goiana no universo pós-gótico, pós-Pio Vargas , pois recarregado com a eterna sutileza da lírica, Das Palavras merece palco maior com reedição esmerada, com gala.  A reedição veio em 2015, acompanhado dos demais livros de Itamar Pires Ribeiro. Desde o primeiro livro Livro de Heitor, de 1990 , que a poesia de Itamar Pires Ribeiro se mostra num raro mosaico de polifonia, que às vezes no ilude  com a localização dos elementos da oração.  São muitas as vozes dentro de um mesmo poema e sempre vai se insurgir um verso de rara metafísica, que deixa “a gente comovido como o diabo”.  O poema que abre a reunião de seus livros, abre com essa pérola:
Sírius, Centauro, Eros, Beatriz:
nomes, nomes com que batizaria
moluscos, poços de água escura,
coisas úteis que tenho à mão.

Verbete: José Godoy Garcia




Nasceu em Jataí (GO), em 3.6.1918, e faleceu em Brasília, em 20.6.2001, onde residia desde 1957. Filho de Pedro Garcia de Freitas e Aladina Godoy Garcia. Ele e outros cinco irmãos ficaram órfãos ainda na infância e foram criados pela avó Maria Rita Guimarães. No ano em que nasceu, Jataí contava com apenas 21 estabelecimentos comerciais, onde predominavam na indústria uma olaria, duas ferrarias e duas carpintarias, sendo a zona rural a responsável pela absorção da mão de obra. Em 1926, seu tio Marcondes de Godoy, que viria a ser deputado estadual, é investido como intendente do município. Na sua gestão, a obra de maior vulto foi a construção do Grupo Escolar Brasil em terreno doado por ele – escola que hoje leva o seu nome e que exauriu quase a totalidade de um ano de orçamento do município. Nessa escola, José Godoy Garcia começaria a trajetória de seus estudos com o professor Nestório Ribeiro. Começa na infância a experiência política, não só pela proximidade com o tio intendente, mas também pela ebulição de movimentos que ocorriam em Jataí. Primeiramente, a repercussão do conflito entre o bando do Carvalhinho e dos garimpeiros do capangueiro Manoel Balbino de Carvalho. Depois, a passagem da Coluna Prestes pela cidade, que obriga a família Godoy a se refugiar por seis meses em Araguari. Destaque ainda para as suas experiências sociais no convívio com vaqueiros e prostitutas, já que na propriedade de sua família tinha uma casa de arreios e, nas adjacências, funcionava um prostíbulo. Em seguida, com uma irmã, é enviado para Uberlândia (MG). Jovem impúbere, José Godoy Garcia ficou isolado numa pensão daquela cidade, com oportunidade de observar, na sua eterna aprendizagem social, a movimentação dos diversos tipos de viajantes que circulavam pela cidade. Sobre Uberlândia, ele declarou que a cidade “era formidável; passei para o ginásio e o diretor era o famoso Mário Magalhães, de Pernambuco. Ele me dava aulas de História, como surgiu o homem, o primeiro instrumento, e alunos cochichavam que ele era comunista. Em 1932, fizemos uma biblioteca; e o primeiro livro de Jorge Amado foi vendido nela.” (2001) Com dezoito anos, José Godoy Garcia se transferiu para a Cidade de Goiás – capital do Estado à época – onde ingressou no Liceu de Goiás (1935/37), tendo sido seu professor Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, autor do clássico Dicionário Analógico da Língua Portuguesa (ano) , e, por colega, o escritor Bernardo Élis. Goiás vivia o auge do Integralismo. Ele lembra, na mesma entrevista (2001), que os estudantes do Liceu invadiram a sede dos integralistas de Goiás Velho. “Levamos os arquivos para a praça pública e queimamos. Foi o primeiro movimento revolucionário (de) que participei” – ele afirma.  Para continuar a formação, passou 1938/39 no Rio de Janeiro, fez o Clássico e frequentou rodas literárias com Lúcio Cardoso, Rubem Braga e outros. Em sua segunda ida ao Rio de Janeiro, assistiu à histórica conferência de Mário de Andrade no Itamarati. Em 1942, instala-se em Goiânia, onde completa o Clássico e o curso de Direito, com atuação destacada no movimento estudantil nos tempos da Faculdade de Direito da Rua 20. Aí tem início a sua produção literária, com a publicação de artigos e poemas em O Popular e em revistas. Apesar de publicado só em 1948, teve Rio do sono premiado em 1944, no segundo ano de existência da Bolsa de Publicação Hugo de Carvalho Ramos. José Godoy Garcia, com esse livro, interna-se numa forma peculiar de sentir a região, revolucionando a poesia que passaria a ser feita em Goiás desde então. Com o ingresso no Partido Comunista, o poeta só retomaria a literatura em 1958, depois de instalar-se nos canteiros de obras da nova Capital (dezembro de 1957) como assessor jurídico da Comissão Goiana para a Mudança da Capital Federal e atuar em advocacia para legalização de terras em cidades goianas circunvizinhas. Sua produção só viria a se intensificar após consolidar-se financeiramente na nova Capital. Voltaria em 1966 com o romance O caminho de trombas, que retrata sua experiência no partido comunista em plena vigência do regime militar. A intenção era fazer uma biografia do movimento do líder camponês José Porfírio de Sousa, já que ele fora um dos advogados do movimento na região de Trombas e Formoso. Para Renato Dias de Souza (2010, 18), com este romance, pode-se constatar o processo de expropriação vivido pelo camponês com a modernização capitalista e as lutas sociais que originara no norte de Goiás. Retomaria a atividade poética em 1972 com a publicação de Araguaia Mansidão, consolidando-se como um poeta de admiração internacional, com poemas em antologias publicadas em Portugal, França e Alemanha. Na Alemanha, foi traduzido por Curt Meyer-Clason, tradutor do Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Acabou duplamente perseguido. Por estar sempre envolvido com os movimentos de crítica e ruptura social, foram longos os períodos em que teve de viver na clandestinidade. Por manter-se alheio às práticas poéticas de sua época em fidelidade à vida e à construção da própria obra, a sua poesia foi deixada à margem pelo processo crítico defensor das escolas literárias, que, depois do Modernismo até o advento dos marginais, talvez por fuga da crítica social, estiveram compromissadas com o esvaziamento da palavra (vanguardas concretistas e Geração de 45). Mas como nenhum artifício de desconhecimento crítico consegue aprisionar a verdadeira poesia, a obra de José Godoy Garcia continua cumprindo a sua trajetória de beleza, de juventude e de dignidade. Fábio Lucas, em artigo consagrador da poesia de José Godoy Garcia, conclui que “O lado catártico não atinge nele a ideologia bélica, como se quisesse combater a violência com outra violência. O seu apelo social veste-se de um realismo antifascista. Mas seu discurso não visa o ato da repressão, antes a conquista da liberdade: liberdade do corpo, da alma, do viver em plenitude, com os outros e para os outros, construtivamente” (1989, 18). Não há para José Godoy Garcia melhor manifestação contra o consumismo impregnado no mundo moderno do que comparecer ao aniversário de um amigo e presenteá-lo com vigorosas folhas de bananeira. Na ficção, produziu um livro de contos, de crítica à miséria dos anos 1970, que atingiu sobremaneira os nordestinos. Vai à exaustão ao narrar as mortes seguidas de 17 filhos de uma única família. Quando faleceu, estava reorganizando as novelas de Florismundo Periquito, projeto que deixou incompleto. Em 1977, num ajuste de contas com as correntes críticas que o defrontam, publica Aprendiz de feiticeiro, abordando as obras de Machado de Assis, Hugo de Carvalho Ramos e Bernardo Élis, entre outros temas. Desde o primeiro livro, até os poemas enfeixados no último livro, A última nova estrela, incluído na coletânea de suas poesias completas, José Godoy Garcia apresenta rara coerência produtiva, sempre no percurso de fidelidade ao sonho, à vida e à madura juventude nunca perdida. O poeta insiste em tecer de palavras o mundo, para ele que quer ampliar a beleza do mundo. É uma poesia que convida o homem a integrar-se nessa beleza: “Perdão a toda natureza que envenenei.” (1999) Num outro poema: “A vida de um homem é a vida do dia.” (1999) Mesmo nos poemas de construção e beleza mais intrincadas, como naquele que começa com o verso “Minha mão se fosse a sua minha lembrança” (1999), há uma vertigem exigindo que tudo se veja e se complete. O homem não se completa sem a nuvem, que não se completa sem a água, que não se completa sem o rio, que não se completa sem a canoa… E tudo se gostando. A poesia de José Godoy Garcia faz parte do corolário de necessidades do mundo. Sem ela, as belezas não seriam as manhãs e os caminhos. As laranjas não existiriam com tanta exigência de beleza, de sex appeal. Numa de suas últimas entrevistas, concedida ao poeta João Carlos Taveira, ele reafirma sua dialética com o corolário de beleza, em que se fixava em Beethoven, Chico Buarque e Noel Rosa: “Só um velho tem o poder para amar com a devida profundidade a vida. Mas seja novo, sempre novo para destruir os males que não permitem que o homem seja bem feliz. E mais um conselho de filosofia ancha e intimista: seja honesto, seja digno de ser um artista, seja carinhoso com as meninas novas e com as meninas velhas, seja revolucionário, mandando à merda sempre as aparências.” (1997, 7) As atividades de José Godoy Garcia, portanto, se restringiram à advocacia, à literatura e ao ativismo político. O percurso de sua formação – e de tantos outros intelectuais goianos – é exemplo de que, na época do processo de urbanização do Estado, a população das pequenas cidades goianas e da região rural dependia do isolamento dos filhos em localidades distantes das famílias; caso contrário, estariam fadadas ao analfabetismo. Conscientes da importância da formação do indivíduo, o seu tio Marcondes de Godoy e a avó matriarca Maria Rita Guimarães conseguiram não só abrir acesso à escola às famílias de Jataí, como lograr êxito na formação superior dos órfãos da família. Pela Portaria 1598, de 22.8.2008, do Ministério da Justiça, foi concedida anistia postmortem a José Godoy Garcia, com indenização à família. Em 2013, a sua obra foi indicada para o vestibular da Universidade Federal de Goiás. Complementam a sua bibliografia os seguintes livros: A casa do viramundo, poesia (Editora Civilização Brasileira, SP, 1980), Aqui é a Terra, poesia (Editora Civilização Brasileira, SP, 1980), Entre hinos e bandeiras, poesia (Thesaurus Editora, Brasília, DF, 1985), Os morcegos, poesia (Thesaurus Editora, Brasília, DF, 1987), Os dinossauros dos sete mares, poesia (Thesaurus Editora, Brasília, DF, 1988), O flautista e o mundo sol verde e vermelho, poesia (Thesaurus Editora, Brasília, DF,1994), Poesia, antologia do 50º aniversário de poesia (Thesaurus Editora, Brasília, DF, 1999).

segunda-feira, junho 18, 2018

Sempre José Godoy Garcia


Na minha viagem para Jataí, enquanto lia o livro de José Godoy Garcia para seleta de poemas que pudesse ler no evento programado naquela cidade goiana em homenagem ao Centenário de seu nascimento, emocionei-me a ponto de eriçar os pelos como um gambá diante do pote de mel, como o beija-flor diante do hibisco, ou como a botina diante da relva orvalhada em hora matutina.

Perdemos muito em não aproveitarmos com maior evidência a poesia de José Godoy Garcia. Perdemos brasilidade e hausto de poeticidade. Em que pese o crescimento de sua aceitação, estamos longe do que a sua poesia merece no que diz respeito à acessibilidade à leitura, a boas edições que possam estar no mercado, e, com isso, ela não é mencionada e catalogada devidamente dentro do contexto histórico da Literatura Brasileira. Tratamos muito mal alguns poetas na hora de dimensioná-los, sobretudo em razão da nefasta cegueira para a desmontagem de avaliações ultrapassadas, abertura de novas fronteiras e assentamento de novos valores. Não julgo exagero considerar que um poeta que compôs um poema como “Pequena coisa imóvel” deva ser colocado no pedestal ao lado de mestres como Rilke, Neruda  e Whitman.

Trata-se de uma poesia que se realiza sem necessidade de exibir a sutileza da composição, pois centrada na sutileza da expressão. Ninguém como José Godoy Garcia para compor sem malabarismos formais, e ele até zomba disso.

Sem nenhum laivo de pretensão, a poesia de José Godoy Garcia ombreia, por exemplo, em expressividade com Fernando Pessoa. Além de produzir o poema com sábio ordenamento interno, mais carregado na enfática metafísica, o homem por ele exibido se coloca no fundo desse ordenamento dos versos, gerando um embate com a vida, num resultado impossível de não indicar emoção e relações para interpretação da inclusão do indivíduo na realidade. A poesia – se existir um modelo de exibida composição–, é essa desnecessidade de exibicionismo para demonstrar existência. Não é necessário que os artifícios de construção estejam mais em evidência do que a proposta de aproximação ontológica dos temas. Todo leitor está acostumado com esse elemento em Fernando Pessoa, e, em José Godoy Garcia, irá encontrar ainda a sutileza construtiva, onde os efeitos estão incorporados à significação.

A sessão magna realizada no dia 3 de junho de 2018, no auditório do SESC, promovida pela Secretaria Municipal de Cultura de Jataí, pelo SESC e pela família do poeta, sob o comando da sobrinha Andrea Godoy Garcia, da qual participamos como debatedor, contou com moderação da professora Flomar Chagas, da Academia Jataiense de Letras, e exposição a cargo de Ionice Barbosa, de Catalão, que está desenvolvendo trabalho de doutorado sobre êxodo rural a partir do romance O caminho de trombas.

O poeta nasceu naquela cidade, onde passou a infância entre tropeiros e prostitutas e assistiu a passagem da Coluna Prestes. Ele sempre retornaria àquela cidade para se refugiar da perseguição política e para convívio com irmãos e outros familiares, ele que ficou órfão na infância, sendo criado pela avó Maria Rita Guimarães e pelo tio Marcondes de Godoy, que foi deputado estadual e intendente municipal de Jataí. Ali chegou a morar por alguns anos antes de transferir-se para Brasília.

José Godoy Garcia, que residiu em Brasília de 1957 até seu falecimento, integrou, como assessor jurídico, a Comissão Goiana para a Mudança da Capital Federal, presidida por Altamiro de Moura Pacheco, e que fora criada pelo Governador José Ludovico de Almeida (Juca Ludovico). Pertenceu por um período à Associação Nacional de Escritores e foi um dos fundadores do Sindicato de Escritores de Brasília.

A Geração 45, que José Godoy Garcia formou com José Décio Filho, Domingos Félix de Souza, João Accioli e Bernardo Élis, foi responsável pelo redirecionamento da literatura para o Modernismo em Goiás. Não confundir o grupo com aquele homônimo, que representava no plano nacional o retorno a uma literatura conservadora em termos de temática e de composição.

            Quando José Godoy Garcia faleceu, em 20 de junho de 2001, declaramos ao Correio Braziliense que a poesia brasileira perdia uma maneira de ver o mundo, uma poesia marcada pela pureza e pela inocência, e também pela autenticidade. No mesmo dia, a poeta e crítica literária Darcy França Denófrio enfatizou ao jornal O Popular que, por unanimidade, Godoy é considerado o principal poeta do Modernismo goiano, apesar de ter precursores como Léo Lynce e José Décio Filho. Na contramão, José Fernandes, que foi estudioso da Literatura Goiana, declarou que José Godoy Garcia é poeta engajado. Se a sua poesia fosse engajada, ela não estaria em ascensão em épocas de visceral nojo ao marxismo-stalinismo, merecendo registrar que, em 2013, o livro Poesia (que reúne sua obra poética) foi obra de referência no vestibular da Universidade Federal de Goiás e vem sendo escolhida para várias teses universitárias, as quais podem ser consultadas na íntegra no ambiente virtual.

            O artigo que Alaor Barbosa publicou na Revista da Academia Goiana de Letras sobre o Modernismo em Goiás também não é, em parte, justo com José Godoy Garcia, pois considera que “Bernardo Élis e José Godoy Garcia (após defecções, em 1956, do Partido Comunista) publicaram mais livros do que antes, sem abandonarem o protesto e a denúncia; mas se comportando, com cautelosa dissimulação, ou simplesmente calando opiniões políticas e procurando apresentar-se publicamente como ‘literatos puros’, sem a antiga eiva ideológica”. Se não estavam na militância política, certamente que esses autores puderam dedicar mais tempo à literatura. Certamente, não poderiam centrar suas obras numa temática que pudesse ter um direcionamento ideológico, pois agora eram ‘literatos puros’. E é o caso de perguntar se a expressão “literato puro” pode ser reconhecida como é reconhecida a expressão “puro sangue”. O que se deve dizer é que José Godoy Garcia escreveu “poesia pura”, sem contaminação da “eiva ideológica”, que não abandonaria enquanto vivesse.

Tanto a sua poesia não foi engajada que ele não produziu nos doze anos de militância marxista-leninista (1945/57). O livro Rio do Sono, concluído em 1944, que dedicou a Mário de Andrade, foi publicado em 1948, e só vinte e quatro anos depois (1972) publicaria Araguaia Mansidão, seu segundo livro de poesia, que teria divulgação limitadíssima na época em razão de censura do Golpe de 1964 pelo interventor de Goiás.

À medida que a poesia de José Godoy Garcia vai se desvinculando da indevida classificação de engajada em razão de sua militância marxista-stalinista, ela vai ocupando seu espaço não só em Goiás, mas também no estrangeiro. Ela já consta de antologias de poesia brasileira publicadas na Alemanha, na França, Portugal e Espanha, e seus livros integram o acervo das principais bibliotecas das universidades americanas.

Em 2005, a família de José Godoy Garcia conseguiria indenização em favor da esposa Maria Rachael Garcia por anistia do poeta por ter sido impedido de exercer a advocacia no período de abril de 1964 a 1980 em decorrência de motivação exclusivamente política. Os advogados que representaram a família relacionam no processo as perseguições que os órgãos de repressão registram sobre José Godoy Garcia nos arquivos da ABIN: atuação no jornal O Estado de Goiás, órgão de divulgação do Partido Comunista; como advogado, em Brasília, teria o poeta sido mentor de assaltos e outras atividades subversivas no Brasil; foi indiciado em IPM, em 06.07.1972, onde foi solicitada sua prisão preventiva; por ter sido autor do romance O Caminho de Trombas, que retrata atividades de movimento de camponeses em Formoso; por ter publicado no jornal Cinco de Março, em 10.06.1968, artigo “no qual eram feitos ataques à Revolução de 1964 e à classe militar”; e, ainda, registro nos órgãos repressivos, datado de 15.04.1972, em que é “citado como advogado em Brasília, mentor de assuntos e outras atividades subversivas no Brasil com verbas recebidas do estrangeiro e autor do Estatuto da Associação dos Lavradores de Formosa e Trombas”; por figurar na relação dos fundadores da Associação Cultural Brasil/Cuba do Distrito Federal; e por atuação como advogado da Associação dos Lavradores de Formosa e Trombas (GO).

Em declaração do advogado José Luiz Bittencourt, colhida pelos advogados como elemento de prova do processo de anistia de José Godoy Garcia, ele afirma que foram colegas no Departamento Estadual de Cultura e, antes, no Departamento de Imprensa e Propaganda, que ambos militaram na advocacia e que, depois de ele se tornar militante do Partido Comunista, José Godoy Garcia teve cassado o registro de advogado. Declara ainda que ele “foi um grande poeta e é um dos nomes de maior importância do mundo cultural de Goiás. Um brasileiro nascido em Goiás que sempre lutou contra o autoritarismo, o arbítrio e a injustiça social. Um marxista que acreditou na filosofia política dos que abraçavam a sua doutrina”.

Ainda José Luiz Bittencourt, num dos três capítulos do livro A consciência da palavra dedicados ao poeta, afirma que a poesia de José Godoy é inspirada na inventividade. “Muito diferente de sua personalidade no convívio social, isto é, de sua conduta humana, pois irreverente, agressivo, irônico, tornava sempre difícil desvincular o real da fantasia em suas descrições literárias. Não poupava crítica dura e pesada àqueles que considerava débeis nas incursões no mundo das letras, "gênios da imbecilidade" como ... definia os favelados da poesia, expressão um pouco estranha, mas vivamente ilustrada de sua combatividade no terreno da estética e da arte".

Fábio Lucas, em artigo consagrador da poesia de José Godoy Garcia, aclama que “o lado catártico não atinge nele a ideologia bélica, como se quisesse combater a violência com outra violência. O seu apelo social veste-se de um realismo antifascista. Mas seu discurso não visa o ato da repressão, antes a conquista da liberdade: liberdade do corpo, da alma, do viver em plenitude, com os outros e para os outros, construtivamente”.

Ressaltamos que José Godoy Garcia era combativo no seu exercício civil, na prática jornalística de crítica hostil aos governantes da ditadura, mas de uma poesia integrada à paisagem goiana, à urbanidade de Brasília, e de um convívio pacífico com os amigos, seja nos bares ou em sua casa na quadra 706 Sul, próximo à Biblioteca Demonstrativa. Uma das maiores lembranças de nosso convívio de viva amizade foi sua presença em um dos meus aniversários. Só um poeta desequilibra as formas das relações capitalistas: presentear o amigo com uma braçada de folhas de bananeira.

 Pequena coisa imóvel

 
Há um ar de vida em flor
na pequena coisa imóvel
que se chama ovo. É manhã?
Montanha? Nuvem? Porco?
Oh Senhora dos Mares e Oceanos
um ovo nunca foi propriamente
algo que tivesse parentesco
consigo mesmo, lembra morada,
lago de água vermelha, sol.
Um ovo é igual à música
que se descobre no dia
ensolarado.
É começo da morte
de qualquer coisa
que vai nascer.
E será vida de qualquer luz
que o trabalho da morte
vai merejar aurora
até vencer.
É suave e sem tristeza
e sua arquitetura lembra
os sóis das origens do mundo
e recorda a pureza da terra.

 

segunda-feira, agosto 07, 2017

Agosto das Letras





No período de 17 a 20 de agosto, o Governo da Paraíba, através da Fundação Espaço Cultural da Paraíba, realiza mais uma edição do projeto ‘Agosto das Letras: Festival de Leitura da Paraíba’, no Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa. São oficinas, palestras, feiras, lançamentos de livros, mesas-redondas, contação de histórias para crianças entre outras atividades de interação com público, escritores e editoras, voltadas aos variados segmentos da área. Integrado ao evento acontece o Quadrinhos Intuados - 3º Encontro Regional Sobre Histórias em Quadrinhos, de 18 a 20 de agosto. No dia 20, às 15h30, o poeta Salomão Sousa participará do painel “A poesia paraibana entre a formação docente e a cenário brasileiro”, com Expedito Ferraz Jr. e mediação de Danilo Peixoto.