terça-feira, junho 27, 2017

Introdução a questões históricas da poesia em Goiás

 Heleno Godoy, Salomão Sousa, Antonio Miranda e Rogério Canedo
 Salomão Sousa, Goiandira, Gilberto Mendonça Teles e Antonio Miranda




 Por Salomão Sousa

O Projeto de Extensão "I Colóquio de Poesia Goiana", vinculado aos Projetos de Pesquisa "Configuração do lirismo na poesia goiana contemporânea" e "Apresentação da poesia goiana: de 1948 aos dias atuais”, que aconteceu nos dias 12 e 13 de junho de 2017 na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás, certamente contribuirá para maior validação crítica da poesia goiana.
Digo, inicialmente, que, ainda que eu falasse de mim, eu ainda estaria falando da poesia goiana, pois, apesar de eu ter construído a maior parte de minha vida em Brasília, sempre procurei manter convívio com a poesia goiana, com ela dialogando, ainda que com o íntimo e amoroso conflito que é peculiar aos seus escritores, sem me distanciar da cultura que me moldou na infância e na adolescência.
Há uns vinte anos – ao comparecer a um sebo de uma cidade satélite de Brasília –, ouvi do livreiro que “Goiás não tem escritores, mas vomitadores de palavras”. A declaração não só transmitia uma visão deturpada da literatura de uma fronteira nova como afetou profundamente a minha postura de poeta com todos os direitos civis de indivíduo goiano e deles mantendo memória orgulhosa. Foi como se eu tivesse ficado marcado como uma rês pelas duas letras que meu pai, em seu analfabetismo, se orgulhava de manter dependuradas na parede. O corpo de um J servindo para acavalar a primeira perna de um M na peça de ferro que servia para marcar as suas poucas peças de gado.
Assumi que teria de modificar meu formato de relacionamento crítico com a produção literária de Goiás, que teria de atuar para atenuar e reverter essa visão, mesmo sabendo que só a minha geração não será suficiente para limpar esse embotamento que se construiu desde os tempos dos governos provinciais, que trabalhavam para que as fronteiras novas não evoluíssem. O meu trabalho não seria só produzindo poesia, mas estudando as questões que contribuem para que se tenha no exterior uma visão embaçada da literatura goiana.
            Além de criação de um blog para abrigar matérias sobre autores goianos, auxiliar o poeta Antônio Miranda na manutenção da página dos poetas de Goiás em seu site e de incluir na Wikipedia o perfil de grande parte dos poetas goianos, procurei identificar questões que não são devidamente levadas em consideração no momento de avaliação da literatura goiana, e aí, sobretudo a poesia, que é a vertente a que estou debruçado:
1)        Goiás é uma fronteira econômica nova, pois antes do Século XX a região era só um veio factível à exploração;
2)       O ensino só foi introduzido, sistematicamente, no Século XX (o censo de 1920 registra que 98% da população não estava alfabetizada; escola Régia no Estado de Goiás é de 1787, na cidade de Meia Ponte (Pirenópolis), e 1788 em Santa Luzia (Luziânia). Em 1827, eram escolas régias na capital e quatro nos arraiais. A criação de escolas para meninas aconteceu somente em 1831. A inauguração do Liceu de Goiás em 23 de fevereiro de 1847 representa a institucionalização do ensino secundário em Goiás, que funcionou até 1937, quando foi transferido para Goiânia. Em 1882 (1984) – para suprir falta de professores, foi criada num anexo do Liceu, a escola para formação de professores, mas que foi extinto dois anos depois por falta de alunos, pois era baixa a remuneração dos professores. Não sigo em frente com este histórico, pois foge muito do escopo da mesa redonda do colóquio, só ressaltando que o ensino superior só seria introduzido no Estado com a inauguração de Goiânia e que a descentralização do ensino superior só ocorreria próximo do Século XXI. É bom conclui este tópico com um aforismo banal, mas certeiro: Não existe produção e consumo de literatura sem educação.
1)        a urbanização, fator imprescindível para a modernidade da poesia, só se introduziu no Estado com a construção de Goiânia (1942) e Brasília (1960).
2)       Max Bense: no Brasil, com o colonizador ocupado com o enfrentamento bruto da natureza, não sobrava energia ao colonizador para gasto de energia com a cultura, e, aí, com a formação pessoal e dos filhos.
Quase todo compêndio sobre o desenvolvi­mento do Brasil Central não economiza enumerações das causas do retardamento da maturidade cultural da região, sempre peculiares ao período de formação de qualquer povo com as mesmas características: o atra­so econômico, a desorganização social, a distância dos grandes centros urbanos, a ausência de vantajoso in­tercâmbio cultural com as metrópoles de avançada es­trutura de meios de veiculação da crítica e da formação cultural, a carência de investimentos públicos no setor e o tardio surgimento de centros de ensino.
E para que essas questões sejam compreendidas e enfrentadas, reconheço que questões estruturais exigem enfrentamento em várias frentes (governo, imprensa, rede de ensino, a família e os próprios escritores).
1.      investimento no ensino para formação cultural, com inserção do espírito de liberdade e de criação, e não só de produção de economia;
2.     convívio com as expressões culturais, com a internalização da cultura dentro dos lares, com disciplina individual para acolhida da cultura e comportamento que justifique no indivíduo a ação organizada para exercício da cidadania. Não é à toa que a casa goiana é pródiga em dependências destinadas à alimentação, tais como cômodo específico para tulha, despensa e cozinha, e fa­lha em reservar ambiente da moradia para a reflexão.
3.     imperioso que a imprensa e segmentos da própria cultura atuem de forma a incentivar a acolhida da produção plural (Kundera fez esse questionamento para a cultura de seu país).
4.     melhor investimento bem econômico/bem cultural. O enriquecimento econômico em si mesmo não libera a ética de um povo, Muito pelo contrário, o enriquecimento gera pobreza e corrupção. O bem cultural gera o equilíbrio da sociedade. Comprova esta assertiva a presença dos filhos dos magnatas da soja instalados em seus carros, nas praças das pequenas cidades goianas, atochados de alcoolismo e ainda sem nenhuma prática de cidadania ao perturbar a população com violento som automotivo.
Postas estas preliminares, apresento um resumo bem livre da poesia goiana de meu tempo, que foi se construindo com o esforço intuitivo de cada poeta. Mas, na apresentação de seu livro A República, Platão nos anima dizendo que só a intuição constrói a estética. Assim, só depois de 1942, com o advento da urbanização, começaram a florescer em Goiás gerações de poetas com ideário mais delineado: o segundo modernismo de engajamento com a vida e a natureza, o GEN e o grupo Os XV, além das razões de surgimento de grupos que praticaram uma poesia de resistência e de um simbolismo gótico.
Quanto à divisão dos períodos históricos da poesia goiana, serão mencionados aqui algumas ca­racterísticas mais recentes, pois Gilberto Mendonça Teles, em A poesia em Goiás, de 1964, pela Universida­de Federal de Goiás, e Assis Brasil, em A poesia goiana no século XX, de 1997, pela Imago Editora, apontam as principais correntes e divisões históricas até o perío­do de publicação de seus estudos. Colheita (A voz dos inéditos), de 1979, pela Inigraf, e Goiás, meio século de poesia, 1997, pela Kelps, ambos de Gabriel Nascente, contribuem menos, pois, com a ambição de preencher lacuna — no período não circulava nenhuma antologia da poesia goiana —, são menos ambiciosas na seleta dos autores e na caracterização do desenvolvimento da poesia goiana. O autor, na apresentação de uma delas, confessa que “poetas maiores, menores ou não, aqui se juntam (…)”. Nesta antologia o organizador prefe­re acreditar que todos se enfeixam numa organicidade capaz de apresentar com crédito, maturidade e inventi­vidade para estabelecer maior permanência da poesia de Goiás dentro da nacionalidade. E — como Gabriel Nascente em Goiás, meio século de poesia — acredita que o melhor corte da maturidade da poesia goiana se dá a partir da década 1940, pois a construção de Goiânia, em 1942, aproximou do meio rural a urbanidade de frutífe­ra miscigenação cultural.
Em Goiás, só em dois momentos, os poetas se organizaram com ideário próprio em torno de pro­postas poéticas. O primeiro momento se deu em 1956, quando foi criado o grupo Os XV, de alinhamento com Geração de 45. No entanto, muitos de seus integrantes — mesmo Jesus Barros Boquady e Gilberto Mendonça Telles, que eram líderes do movimento — acabariam retornando, em algum momento, à versão da poesia mais livre. A fidelidade à estética estabelecida pelo gru­po seria mantida de forma mais permanente apenas por Afonso Félix de Sousa. O segundo momento ocor­reu a partir de 1963. Do contraditório Grupo de Escri­tores Novos (GEN), que teve atuação mais formalizada até 1967, pode-se dizer que teve a função de conscien­tizar o poeta goiano para a forma de atuar aparelha­da das descobertas estilísticas em vigor no seu tem­po, ampliando o espectro de experiências de produção poética. Valeram-se dos jornais para divulgar trabalhos e fazer laboratório crítico. O grupo avançou até as van­guardas da época, tais como a Poesia Praxis, que ainda conta com Heleno Godoy e Luis Araújo Pereira em viva produtividade. Do grupo, ainda são expoentes Yêda Schmaltz, que tem produção diversificada, fazendo na região as primeiras interligações da poesia e da pin­tura com a linguagem da informática; e Miguel Jorge, que contribuiu de forma vivaz com o grupo e com as demais vertentes ao dirigir suplemento literário no jornal O Popular, contribuindo de forma a ampliar a visibilidade da literatura goiana no mercado editorial e na aceitação crítica fora de Goiás. Os remanescentes dos grupos Os XV e GEN continuaram dentro de suas dogmáticas, menos filia­dos à exposição da região, cada um se ajustando à lin­guagem que lhe convém, sempre margeando a reflexão política.
É importante ressaltar que alguns caminhos da poesia goiana, a partir do GEN, não vêm merecen­do melhor caracterização pelos historiadores, críticos e meio acadêmico. Sempre que se vai produzir novo estudo a orientação da pesquisa para a avaliação dos poetas e da sucessão dos períodos históricos esbarra nos limites estabelecidos pelo livro A poesia em Goiás. No entanto, publicado em 1964, os efeitos da mudança da capital do País e as consequências da ditadura, bem como o desenvolvimento das obras dos autores que co­meçavam a produzir naquele momento não puderam ser avaliados por Gilberto Mendonça Teles. Assim, os novos estudos esquecem que a ditadura acertou de cheio Goiânia, que, em razão da proximidade com a capital Federal, serviu para centro de prisões políticas, inclusive com cessão de dependências de instituições públicas para tortura e assassinato de presos políticos. Hoje, essas dependências são destinadas à produção e à exposição cultural. Por essa proximidade, tanto física, quanto de ação dentro da história, a ditadura acertou de cheio a literatura goiana, com sequelas visíveis até os dias atuais.
A partir daí duas vertentes foram se conso­lidando dentro da poesia goiana, sem que tenham nascido com a preocupação direta de resistência ao regime de exceção. A primeira vertente está preocupa­da com o “abismo”, a “noite”, o “escuro”, o “exílio” e o “silêncio”, que denotam o conhecimento da vigilância da opressão que ronda o espaço físico do poeta e, ain­da, demonstra a clandestinidade que o cidadão devia guardar silenciosamente; e, a outra vertente, que atua quase em paralelo, prefere esposar reação de estra­nhamento, sem denotar resistência direta ao período de “escuridão” política, mas de desconforto às “trevas” da própria existência. Estas duas correntes passaram a rejeitar — até os tempos atuais — os poetas do GEN. Essa rejeição, até agora, não foi analisada para apurar se o antagonismo se dá pela divergência que cada uma adotou diante da estranheza política da época ou pela condução diversa do formato da linguagem poética de cada corrente.
Não foi de engajamento direto contra a dita­dura ou outra segmentação política a produção do pri­meiro grupo. Vindo em descendência direta do moder­nismo de José Décio Filho e José Godoy Garcia, o grupo — que não teve organização formal ou formulação de ideário como tinha ocorrido com Os XV e o GEN — im­pregnaram suas obras de fluorescência humana, sem­pre com toque de desencantamento. É grupo que tem de ser lido com a acesa lembrança das contradições po­líticas do período, e sem a esperança de encontrar nele qualquer lirismo redentor. No segundo livro de Brasigó­is Felício, a voz do poeta conclama:

Não perdoa, Pai,
que eles sabem o que fazem
e como sabem fazer!

Ainda em 1987, Gabriel Nascente remete para o futuro as consequências desse tempo perdido, gera­ção que foi deslocada de suas possibilidades, proibida de ter conhecimento e consciência:

O tempo é um comboio invisível
que nos arrasta para o entardecer da vida.
A força da consciência se dilui — é o tempo.
O ontem tão cheio dos porquês: e agora, pesado,
cada vez mais certo nas ondas do futuro.

Aidenor Aires, em 1973, em versos cálidos, também se mostra poeta dos tempos sombrios que re­caem sobre Goiás e sobre a nacionalidade:

Uma ave branca ficará
chorando nos escombros

A segunda corrente adotou um simbolismo gó­tico para expressão do estranhamento de viver o espí­rito dos tempos sombrios da ditadura. Os estudos para instrumentação desta linguagem levaram algumas vo­zes do período a confundir onde fica(va) o limiar entre a vida e a obra. Valdivino Braz, Edival Lourenço e Delermando Vieira são os ápices desse segmento, que acabou tendo reflexos em poetas que seguiam por outras vias da poesia goia­na, tais como Pio Vargas e Tagore Biram. Em 2004, no poema “Evasão” — que pode ser o termo a ser escolhi­do para designar o sentimento que ficou do período — bem memorialístico do poeta gótico-pós-vaguardista, com desdobramentos internos, Edival Lourenço, após questionar ”o projeto (que) não se fez obra” e ”os pensamentos sob censura”, faz prédica da poética do futuro, pois foram assumindo líricas bem pessoais, insertas numa violência visionária, de busca de novas identidades para a linguagem e também para o homem exilado dentro do desconforto de existir no espaço e no tempo:


Só quero um dia obter a senha
Ter nas mãos a abracadabra
A aba que abrace a dobra
Ou a obra que abra as abas
E tirar de lá meu rascunho
Que jamais logrou escolha
Meus sonhos imanifestos
Meu destino sem outorga
Nem código de barra impresso
E aí noutro tempo e lugar
Me reconstruir em novas bases
Com aquela perdida face
Que lá também deve estar.

Por isso, a poesia goiana desse período deve ser lida e analisada com conhecimento da estranheza his­tórica vivida em Goiás com muito maior intensidade do que nas demais regiões do País. Era a ditadura, a guerrilha do Araguaia, o AI-1, o AI-2, o AI-3, o AI-4, o AI-5, o pau de arara. Um poema como esse de Edival Lourenço, para aquele que desconhecer o furor políti­co-social da época, não vai entrar no clima, talvez só vá julgar que o texto é expressão de uma lírica de desilu­são.
É claro que, num convívio com estas duas cor­rentes, surgiam poetas mais que transpareciam as estranhezas góticas e as e reflexos de outras corren­tes em andamento no País, com influências dos poetas de recorte da publicidade e da contenção leminskiana. No entanto, entre 1980 e 2000, foram raros os poetas que se acrescentaram às correntes da poesia goiana, sobressaindo Maria Abadia Silva e Marcos Caiado, e, separadamente, Pio Vargas e Tagore Biram — estes dois últimos se consumiram em alcoolismos estranhos, sem tempo para conclusão de suas obras.
Agora, é obrigação registrar que essas gerações tiveram de conviver com o desalento e o rancor de es­tar à margem do processo editorial e, em consequên­cia, do abandono da avaliação crítica. Ficavam, assim, obstruídos no caminho para o mercado editorial e sem a orientação para ajustes das poéticas pessoais, que só a crítica justa incita e estimula. Sob estas condições, tornava-se impossível a poesia produzir presença em territorialidades fora das fronteiras de Goiás, por mais que tenham sido criados concursos literários e bolsas de publicações sob os auspícios do Estado.
Com a ampliação da oferta de cursos de Le­tras, de Línguas, de Filosofia, e entrada de professo­res íntimos da literatura para suporte do ensino, foram sendo ampliadas as condições para surgimento de poetas capazes de absorver e expressar matizes e matrizes das vanguardas brasileiras. Depois de Pio Vargas, Edmar Guimarães e Wesley Godoi Peres entrarem com experimentos capazes de quebrar a for­ma de a tradição da poesia goiana lidar com a imagéti­ca da natureza, abolindo-a em nome da suspensão do real, emerge a geração voltada para a web, que desen­volve novas e desconstrói velhas linguagens, às vezes abolição do verso, às vezes a desconexão vocabular, ou a construção coletiva, ou o visual, ou a desconstrução frasal, ou o poema em prosa, o poema tuíte, ou o so­neto. Agrupados em comunidades virtuais, ensaiam novos formatos de lidar com a composição e com a circulação das obras. Alguns sequer publicaram livros físicos, pois acessíveis só em e-books, e, no entanto, já reconhecidos pela revista Poesia sempre, da Biblioteca Nacional.
            Há que se reconhecer a introdução de um poeta pernambucano, que vai se enraizando goiano, para insuflar adrenalina nos aspectos da poesia que se produz atualmente em Goiás. Jamesson Buarque tanto no meio acadêmico quanto no ombro a ombro com a juventude, e com a produção de uma poesia que certamente irá ser destaque na nacionalidade, insufla na camada mais jovem da poesia goiana o sentido da tradição e o esforço para que a palavra extrapole a capilaridade do real.  
Ainda é um mundo nebuloso, a web. Mas na névoa se esconde o inominável, o viajante, o poema perdido. Quando soube da escolha de poema de sua autoria para ilustrar este parágrafo, Marra Signorelli, com a jovem memória dos vinte anos, surpreendeu-se que o poema existisse que que fosse de sua autoria. Assim, Marra Signorelli, onde o muro da ditadura ainda está dentro, ou a impaciência do espaço incisivo da urbe, ou erro, ou a inconsciência, ou a eterna resistência da poesia:

Que aqui se faz a voz
Voz outra voz outrora atroz
Ou seria de dizer Vox
Nem Fox News ou CNN
Veloz
Como instinto de sílaba e sangue
De silêncio entremeando-me o si
De alguma peça ou de algum murmuro
Ou mesmo de algum carro que range
Porta ou fechadura corpo adentro.

O se.

Conforme previsto pelo artigo publicado em O Jornal do Rio de Janeiro, na edição de 11 de agosto de 1944, Goiás, com o Batismo de Goiânia, passou a ser o “centro de irradia­ção de novas bandeiras”. Goiás, portanto, não é só a bandeira que sina­liza e apressa a corrida para a construção de Brasília. Não é só a bandeira que abriu e apontou caminhos para a urbanização de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins, trazendo novos movimentos para o eixo do desenvolvimento econômico e cultural. Passada a eu­foria da corrida para essas frentes, a irradiação merece ocorrer de dentro para fora com celeridade, não só com liberação de estoque econômico, mas de bens culturais construídos por vozes erigidas na região.
Tudo isso balizado, a poesia desse território virgem e espoliado de sua riqueza deve ser tomada como gesto nascente, de vigor natural. E tudo que é jovem — natu­ralmente vigoroso e autêntico — merece ser convocado para somar energia à nacionalidade.

domingo, maio 29, 2016

Discurso de posse de Alaor Barbosa na Academia Brasiliense de Letras


Discurso de posse de ALAOR BARBOSA na Cadeira 29 da ACADEMIA BRASILIENSE DE LETRAS, na sede da Associação Nacional de Escritores (A.N.E.), em Brasília, Distrito Federal, no dia 23 de maio de 2016, às 20 horas. 

Minhas Senhoras.
Meus Senhores.

Já contei esta história. Não bem história, e sim uma pequena experiência, que, no remoto ano de 1948, na minha cidadezinha natal, Morrinhos, no Sul de Goiás, se repetia com alguma frequência. Eu tinha então oito anos de idade e era aluno do segundo ano do curso primário no Grupo Escolar Coronel Pedro Nunes – o único na cidade. Na sala de aulas, existia um mapa do Brasil, mais ou menos comprido, pendurado à parede, ao lado do quadro-negro, um pouco acima de meia altura. Eu gostava de olhar, com atenção, no mapa. (Nasceu então, com certeza, meu hábito de ler mapas, que me tem proporcionado a agradável sensação e confortante percepção de que sei bem onde se situam os diversos lugares do mundo.) Desde a primeira vez que me postei diante dele, eu reparava em um quadradinho colocado entre os limites do Estado de Goiás, com estas palavras dentro: FUTURA CAPITAL FEDERAL. Eu via aquela mensagem, e me enchia de esperança, um tanto prejudicada pela dúvida: Será que um dia mudam mesmo a capital do Brasil pra cá pra Goiás? Apesar da minha idade bastante tenra, eu já sabia bem o que é capital: uma cidade mais importante e principal, onde fica o governo. Ali em Morrinhos falava-se muito na nova capital de Goiás, Goiânia, uma cidade muito nova construída mesmo para ser a capital do nosso Estado de Goiás e que eu conhecera de passagem três anos antes (em julho de 1945) em uma viagem, com toda a família – meu pai, minha mãe e dois irmãos – à cidade de Trindade, aonde fomos por causa da Festa do Divino. Meu pai sempre se referia a Goiânia não pelo nome, mas pela condição de “nova capital”. Goiânia ocupava e excitava a minha imaginação também como cidade muito desenvolvida, moderna e propícia para gente jovem estudar, pois lá estudava, desde 1947, meu irmão Geraldo. Quem quisesse se desenvolver tinha de ir morar em Goiânia.
O multifacético pioneirismo concretizado em Goiânia depressa assumiu também, é preciso lembrar, uma certa liderança no movimento de luta em favor da mudança da Capital Federal. Coerentes com esse fato, e com a tradição dos goianos de participarem desse movimento, foram dois parlamentares goianos, Diógenes Magalhães (nascido em Alagoas) e Guilherme Xavier de Almeida (este, natural de Morrinhos), que conseguiram inserir no texto da Constituição de 1946 a norma que previa e ordenou a mudança. É preciso registrar também que existia em Goiânia, se não me engano desde 1947, uma rádio de poderoso alcance, a Rádio Brasil Central, fundada pelo governador Coimbra Bueno, cujo lema era mais ou menos este: “Uma emissora da Fundação Coimbra Bueno dedicada à defesa da mudança da capital do Brasil”. 
A futura capital federal precisava de nome, e eu entrei a ver o nome Brasília, que me agradava muito, referido de vez em quando, uns quatro ou cinco anos depois daquela época em que eu estudava no Grupo de Morrinhos. Acho que a primeira vez foi em 1952 ou 1953, em um encarte denominado Ingra, em formato tabloide, do Correio da Manhã, um dos mais importantes jornais do Rio (que meu pai assinava mais para obter papel de embrulho na sua venda). As duas ou quatro páginas centrais do suplemento Ingra eram dedicadas à defesa da causa da mudança da capital federal para o Planalto Central. Quem as editava era uma jornalista goiana residente havia muitos anos no Rio de Janeiro, Dayse Porto (que eu vim a conhecer em 1956, na Associação Goiana do Rio, e de quem me tornei, posso dizer, amigo).
Tudo o que se referisse à mudança da capital federal me interessava muito. Esse era um assunto que raro aparecia na imprensa do País. Mas, iniciado o governo do Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, em janeiro de 1956, passou a existir uma certa expectativa de que ele cumpriria a promessa, feita em Jataí, de mudar a Capital Federal.  E eis que, de repente, em setembro ou outubro de 1956, saiu, em manchete da primeira página do jornal Última Hora, do Rio de Janeiro, a notícia de que Juscelino Kubitschek decidira tomar efetivas providências e medidas para construir Brasília e transferir a Capital Federal para o Planalto Central. Se não me engano, uma dessas medidas foi o envio, ao Congresso Nacional, de um projeto de lei, assinado na cidade de Anápolis, em Goiás, para a constituição da empresa construtora, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital, NOVACAP. Eu já morava no Rio, para onde me transferira também em janeiro daquele ano, a fim de estudar. Ainda caminhando em direção ao apartamento onde morava, na rua Corrêa Dutra, no Flamengo, decidi escrever uma crônica sobre o que significava para Goiás e o Brasil aquela mudança que eu considerava profundamente transformadora. Incontinenti a redigi e despachei, pelo correio, para o meu irmão Eurico, em Goiânia, para que ele a publicasse no semanário Jornal de Notícias, do deputado Alfredo Nasser, no qual Eurico colaborava. A crônica foi publicada poucos dias depois, mas eu só soube disso bem mais tarde.   
E o Presidente Juscelino entrou a trabalhar, com rapidez e inaudita eficiência, para realizar aquela que se tornou logo a principal, a mais importante, a mais emblemática de todas as suas metas. Juscelino tinha pressa, pois julgava que a mudança não se consumaria senão se feita por ele mesmo. Eu acompanhei, muito atento a tudo o que acontecia, a marcha da construção. A cada acontecimento positivo naquela história épica, eu vibrava de entusiasmo. Na Revista Goiana, que ajudei a ressuscitar na Associação Goiana, no Rio, em 1958, publicamos, na capa bastante colorida, uma belíssima fotografia do Palácio da Alvorada, já pronto, ou quase pronto. E uma das matérias principais daquela edição tinha por objeto a construção de Brasília: um texto poético elaborado pelo jornalista José Asmar, um jornalista goiano muito talentoso residente também no Rio havia muitos anos e que trabalhava no jornal O Globo.  Convém observar que os jornais mais importantes do Rio quase não falavam do assunto Brasília.
E a mudança se consumou. O que era coisa imaginária virou realidade concreta – e se existe realidade a que se ajuste bem o adjetivo concreta, essa é naturalmente a nossa cidade de Brasília.
O ficcionista que tenho sido há muito tempo mora dentro dessa realidade concreta há trinta e dois anos.  Uma experiência riquíssima. Sou um deslumbrado com Brasília. O meu alumbramento se renova e repete a cada manhã, quando saio do meu apartamento e caminho através das superquadras residenciais da Asa Sul, depois de, por dez anos, havê-lo feito na Asa Norte. Um prazer imenso, caminhar entre tantas árvores bonitas da minha terra goiana, experimentando, com frequência, uma singularidade brasiliense: muitos dos caminhantes se cumprimentam uns aos outros, com bom-dia, boa-tarde, boa-noite. O prazer de contemplar continua quando me desloco através das amplas avenidas do Plano Piloto, e reparo, com muita atenção, quase como se os visse pela primeira vez, nos panoramas das sucessivas quadras e blocos sempre novos e surpreendentes nos seus ângulos e matizes ricos em cambiantes notavelmente bonitos e vejo, lá em cima, o espetáculo alumbrador do céu azul e límpido, que, conforme sabemos, se constitui, já faz algum tempo, em um dos orgulhos do povo de Brasília.
Cidade que, por ser em si mesma uma portentosa obra de arte, e que, singularmente propícia à criação intelectual e artística, fez-se rapidamente, já nos seus primórdios, um extraordinário e fecundíssimo ambiente e viveiro de artistas de todas as artes, Brasília me ajudou muito a construir, durante este tempo em que aqui tenho vivido, a parte mais significativa da minha obra literária de ficcionista, que é, para mim, convém declarar, aquela que verdadeiramente importa. A concretitude e onipresença da beleza desta urbe tão original, que concretizou e que documenta a criatividade do gênio brasileiro, e que, enquanto obra mormente humana, é também uma Cidade Maravilhosa, fecundou minha criatividade, me proporcionando condições favoráveis a recompor meus contos já prontos, a escrever outros tantos e a construir os meus romances, que antes de Brasília receava muito não ser capaz de realizar.  
E hoje, agora, neste momento, assinalo e registro, com muita e natural emoção, este fato para mim extraordinário: aquele menino que em uma pequena cidade do interior de Goiás, sessenta e oito anos atrás, se perguntava se algum dia a capital federal viria mesmo pra Goiás, aquele menino está hoje adentrando e sendo generosamente recebido nada menos que na Academia Brasiliense de Letras, uma entidade representativa do escol da inteligência, da cultura, do espírito, da criatividade do povo que habita esta cidade tão fecunda e fecundante. Um acontecimento para mim grandioso, memorável, marcante, por tudo o que evidentemente significa em si e para mim em particular, inclusive o reconhecimento, de que todo homem necessita. E que se soma aos  outros atos de reconhecimento, a mim generosamente proporcionado poucos anos atrás por duas outras entidades culturais de Brasília igualmente importantes: o Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e a Academia de Letras do Brasil, que também me fizeram seu membro efetivo. Vou parafrasear o grande mestre que foi Machado de Assis, dizendo que o reconhecimento, sinônimo de solidariedade e apoio, fortalece e estimula, além de ser o que “eleva, honra e consola”.
Devo dizer que o reconhecimento que hoje se realiza em meu favor, nesta cidade, vem somar-se também ao extenso rol de ações de igual significação reconfortante que me foram proporcionadas também na terra onde nasci: em Goiás, me tornei membro da Academia, por eleição unânime, há exatos trinta e sete anos.
Preciso falar agora do patrono da cadeira, a de número 29, que venho assumir hoje na Academia Brasiliense de Letras. Confesso que, ao ouvir a sugestão, feita por esse fraterno amigo que é José Jerônimo Rivera, no dia da sua eleição para esta Academia, de pleitear também eu uma cadeira nela – sugestão logo reforçada pelo apoio espontâneo de outros amigos a quem devia e devo extrema consideração, dentre os quais tenho o dever de salientar Fábio de Sousa Coutinho e Anderson Braga Horta – muito influiu, na minha decisão de a aceitar, esse fato de ser a cadeira, que eu poderia vir a ocupar, patroneada por esse escritor extraordinário que se chamou Hugo de Carvalho Ramos, o qual, ainda na puberdade, na adolescência e na juventude, produziu um valoroso livro de histórias – intitulado Tropas e boiadas – e que, pouco depois de o publicar, decidiu, dramaticamente, ausentar-se deste mundo por suas próprias mãos, aos vinte e seis anos de idade.
Falemos dele, mas com a brevidade que a circunstância impõe.
Hugo de Carvalho Ramos nasceu em 21 de maio de 1895 na Cidade de Goiás, um pequeno burgo decaído de sua antiga grandeza de centro de produção de ouro, mas riquíssimo em cultura, em fecundas tradições, em valores humanos de extraordinária importância, e que ainda cumpria o papel de Capital do Estado.  Ele formou o seu espírito lá mesmo em Goiás, nas escolas, na convivência com meninos e rapazes da sua geração, e em andanças através das zonas rurais com o seu pai, Manoel Lopes de Carvalho Ramos, um baiano de estirpe literária que, formado em Direito na tradicional Faculdade de Recife, se transferira para a longínqua província de Goiás a fim de exercer o cargo de Promotor na comarca de Torres do Rio Bonito, atual Caiapônia, na zona centro-oeste da província. Era poeta, esse Manoel Lopes de Carvalho Ramos. A principal produção do seu estro foi o poema épico Goyania, que conta em versos camonianos a história do descobrimento de Goiás pelo bandeirante paulista Bartolomeu Bueno da Silva, o primeiro Anhanguera, no último quartel do século XVII. O longo poema – que anos mais tarde forneceu o nome da nova capital do estado – foi editado em livro, em Portugal, em 1896, e trazido para Goiás em longas viagens de navio: um que veio de Lisboa a Belém do Pará e outro, que subiu os rios Tocantins e Araguaia  até alcançar o porto de Leopoldina, no rio Araguaia. Desse lugarejo, hoje cidade de Aruanã, o livro foi transportado para a cidade de Goiás, é fácil presumir que em carro de bois ou em alguma tropa que costumava fazer o trajeto Leopoldina – Goiás.   
Com dezessete anos de idade, em 1912, após os estudos fundamentais e os médios, Hugo se transferiu para o Rio de Janeiro. Enquanto fazia, com um talento intelectual notado por  alguns colegas, mas sem bastante empenho, o curso de Direito, ele se empenhou na sua atividade literária escrevendo contos e poesias.
Aos vinte e um anos de idade, em fevereiro de 1917, publicou o seu primeiro e único livro de ficção, Tropas e boiadas, cujas histórias revelam a sua profunda identificação com a terra em que nascera. Dos catorze contos e do romance Gente da gleba, que o integram na edição definitiva preparada por seu irmão mais velho, Víctor de Carvalho Ramos, nenhum discrepa dessa identificação telúrica – uma tendência literária, aliás, predominante na época. Tropas e boiadas participa do conjunto de livros configuradores de uma literatura regionalista que então se desenvolvia no Brasil, e que se representa muito clara nos extraordinários romances do baiano Afrânio Peixoto e nos belíssimos contos do gaúcho Simões Lopes Neto, em continuação da literatura muito bem produzida pelo cearense José de Alencar, o mineiro Bernardo Guimarães, o fluminense Visconde de Taunay, o maranhense Aluízio Azevedo, o pernambucano Franklin Távora, o maranhense Coelho Neto, o mineiro Afonso Arinos, o paulista Valdomiro Silveira, o paraense Inglês de Souza, o cearense Oliveira Paiva, o baiano que viveu em Goiás, Crispiniano Tavares, o maranhense Graça Aranha, e, pode ser incluído, o fluminense Euclides da Cunha, e que prosseguiria, em parte, nos contos do paulista Monteiro Lobato e nos contos e romances do fluminense Adelino Magalhães. Há quem vincule o livro do nosso autor goiano diretamente ao belíssimo livro de contos Pelo sertão, de Afonso Arinos, o grande filho de Paracatu, município confinante com terras goianas deste nosso Planalto Central.  
É bom esclarecer que Hugo de Carvalho Ramos, apesar de sua condição de precursor e pioneiro no conto regionalista brasileiro, não foi o inaugurador do conto regionalista em Goiás. Antes dele, houve o valoroso escritor baiano, que acabei de citar, Crispiniano Tavares, o qual viveu em Goiás na zona sudoeste – na cidade de Rio Verde – e publicou, em Uberaba, um importante livro de contos, intitulado Contos, fábulas e folclore. Também em 1910, ano em que parece ter sido publicado o conto O saci, de Hugo de Carvalho Ramos, que não tinha mais do que quinze anos de idade, saiu, no Anuário Histórico, Geográfico e Descritivo do Estado de Goyaz para o ano de 1910, do Professor Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, um conto, intitulado Tragédia na roça, de autoria de uma jovem (com vinte e um anos de idade) autora da Cidade de Goiás, Cora Coralina, que muito tempo depois, a partir do ano de 1965, se tornaria bastante conhecida em quase todo o Brasil, principalmente por causa da sua produção poética.
Vou transcrever o segundo parágrafo do primeiro conto de Tropas e boiadas, “Caminho das tropas”, para dar uma pequena amostra do estilo e linguagem das narrativas de Hugo:
O Joaquim Culatreiro, atravessando sem parar o piraí na faixa encarnada da cinta, entre a “espera” da garrucha e a niquelaria da franqueira, desatou com presteza as bridas das cabresteiras, foi prendendo às estacas a mulada, e afrouxou os cambitos, deitando abaixo arrochos e ligais, enquanto um camarada serviçal dava a mão de ajuda na descarga dos surrões.”
Esse vocabulário bem marcado e o ritmo cadenciado e vigoroso constituem a tessitura e as principais características da linguagem e estilo e Hugo de Carvalho Ramos em todas as suas narrativas, que retratam com fidelidade o meio rural e o das pequenas comunidades sertanejas da terra goiana. Nelas se verifica ter ele pagado o preço da sua juventude, com algumas passagens o seu tanto imaturas e aqui e ali açamoucadas, com lapsos e impropriedades, mas sem prejuízo do notável e sempre presente vigor narrativo e de um extraordinário senso das proporções. Cada história possui a extensão necessária. Isso se verifica não apenas nos contos, mas também no pequeno romance, ou novela, como se queira, Gente da gleba, que é certamente uma pequena obra-prima na linguagem e estrutura e pela originalidade temática. Gente da gleba constitui talvez a primeira narrativa brasileira que apresenta o drama do trabalhador rural brasileiro, e, note-se, com uma veracidade quase documental, que não se encontra na nossa literatura senão nos romances posteriores a 1930: nela se verificam as duras e perversas relações de dominação e injustiça existentes entre os donos da terra e os homens que nela trabalhavam. Um extraordinário exemplo é a cena da castração que o latifundiário – sempre chamado apenas de Coronel – executa no pobre e indefeso rapaz que ousara defender contra ele a posse exclusiva de uma bela mulata do arraial de Curralinho. É bem sabido em Goiás que essas situações ocorriam na realidade no duro mundo da vida rural. 
Ao construir as suas narrativas, Hugo de Carvalho Ramos exercitou, é fácil observar, a forte influência do estilo da prosa da época, construído, com muita densidade, principalmente por Coelho Neto e Euclides da Cunha, dois autores que Hugo de Carvalho Ramos leu muito e certamente absorveu com intensidade de uma certa época em diante, conforme nos conta Víctor de Carvalho Ramos no rico perfil biográfico que escreveu sobre o irmão mais novo. De Coelho Neto recebeu ele muito do estilo, a técnica de narrar, o gosto da minúcia. De Euclides, a visão sociológica, que se mostra em algumas passagens que parecem inserções estranhas em um texto de narrativa ficcional. Uma delas, julgo necessário transcrever, apesar de um tanto longa:
Geralmente, o empregado na lavoura ou simples trabalho de campo e criação, ganha no máximo quinze mil-reis ao mês. Quando tem longa prática no traquejo e é homem de confiança, chega a perceber vinte, quantia já considerada exorbitante na maioria dos casos. É essa a soma irrisória que deve prover às suas necessidades. Gasta-a em poucos dias. Principia então a tomar emprestado ao senhor. Dá-lhe este cinco hoje, dez amanhã, certo de que cada mil-reis que adianta, é mais um elo acrescentado à cadeia que prende o jornaleiro ao seu serviço. Isso, no começo do trato; com o tempo, a dívida avoluma-se, chega a proporções exageradas, resultando para o infeliz não poder nunca saldá-la e torna-se assim completamente alienado da vontade própria. Perde o crédito na venda próxima, não faz o mínimo negócio sem pleno consentimento do patrão, que já não lhe adianta mais dinheiro. É escravo da sua dívida, que, no sertão, constitui hoje em dia uma das curiosas modalidades do antigo cativeiro. Quando muito, querendo dalgum modo mudar de condição, pede a conta ao senhor, que fica no livre arbítrio de lha dar, e sai à procura dum novo patrão que queira resgatá-lo ao antigo, tomando-o ao seu serviço. Passa assim de mão em mão, devendo em média de quinhentos a um conto e mais, maltratado aqui por uns de coração empedernido, ali mais ou menos aliviado dos maus tratos, mas sempre sujeito ao ajuste, de que só se livra, comumente, quando chega a morte.
Não posso deixar de apresentar mais uma pequena amostra da linguagem e estilo de Hugo de Carvalho Ramos, transcrevendo um pequeno trecho de Gente da gleba:
A madrugada amiudava. Já as barras vinham quebrando e no cabeço dum serro, mui branca e tremeluzente, a estrela-d’alva minguara o seu clarão lacrimejante, anunciando o romper do dia.
Rédeas encurtadas, a niquelaria da cabeçada retinindo festivamente, Benedito deu entrada no arraial no trote picado da mula, que frechou direita ao rancho dos tropeiros.
Finalmente, devemos lamentar que Hugo de Carvalho Ramos venha caindo no esquecimento, tal como tem acontecido a um grande número de escritores brasileiros, não só da sua época. Seu livro Tropas e boiadas nunca mais foi republicado, depois que mereceu uma bela edição, a quinta e última, em 1965, com um valioso estudo introdutório elaborado por Manoel Cavalcanti Proença. O mesmo se diga do volume das suas Obras Completas, editado bem antes da quinta edição de Tropas e boiadas, calculo que na década de 1950, o qual incluiu, naturalmente, a sua produção poética, a qual, ao meu ver, não é de modo algum despicienda. Convém apresentar uma pequena amostra dessa produção: o poema “Sonho desfeito”, incluído por Veiga Netto na sua preciosíssima “Antologia Goiana”, editada em Goiânia no ano de 1944, com a informação de ter sido “Encontrado entre as páginas de um livro no Gabinete Literário Goiano”:

E, contudo, também eu trouxe para a vida
Uma grande expressão de calma e de harmonia,
Que a tristeza do mundo aos poucos asfixia
Dentro dalma a sangrar pela dor mal-ferida.

Era um hino de paz, na apoteose do dia,
Erguendo para o céu campanários de ermida
Onde fosse rezar a prece mais sentida
O devoto de amor que dentro em mim jazia.

Mas depressa rasgou-se o hinário da esperança,
As páginas, então, dispersaram-se ao vento
E do passado esplendor já não há mais lembrança.

Ficaram para sempre enterrados no peito,
Ecos, sumida voz, que exalo num lamento
Ossuário de ilusões do meu sonho desfeito...

Julgo-me no dever também de falar do primeiro ocupante desta Cadeira 29, o ilustre biógrafo e historiador baiano Luiz Viana Filho.
Nasceu ele, acidentalmente, em Paris, na França, em 28 de março de 1908, e faleceu na cidade de São Paulo, em 5 de junho de 1990.  Político desde jovem, participou das assembleias nacionais constituintes de 1934 e de 1946, foi governador da Bahia de 1967 a 1971, ministro de Estado, senador da República, membro da Academia da Academia de Letras da Bahia, da Academia Brasileira de Letras e desta Academia Brasiliense de Letras. São consideradas clássicas as suas biografias de Rio Branco, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Machado de Assis, José de Alencar e Eça de Queiroz. 
No seu discurso de posse na Academia Brasiliense de Letras, ocorrida em 3 de dezembro  de 1982, Luiz Viana Filho focalizou a personalidade literária do patrono, Hugo de Carvalho Ramos,  apresentando um  bom perfil biográfico,  do qual constam reveladoras citações de cartas que Hugo remeteu a uma irmã, e um paciente levantamento da surpreendente fortuna crítica, unanimemente positiva, que alcançou o livro Tropas e boiadas. Vou transcrever um pequeno trecho do discurso de Luiz Viana Filho: “Não nos estenderemos sobre as apreciações com que a crítica recebeu Tropas e boiadas. Mas, não podemos silenciar haver Viriato Correa lido três vezes o livro, tanto este o empolgou. E Jackson de Figueiredo afirmou cheio de entusiasmo: ‘Digo sem medo de errar que, dos escritores da nova geração, nenhum se apresenta assim, à entrada da vida literária, com tantas e tão formosas qualidades artísticas, tão segura técnica de um gênero difícil ou, pelo menos, raramente cultivado entre nós.’ Ao mesmo tempo em que, para o irreverente Antônio Torres, ‘Mágoa de Vaqueiro’ é quase uma pequena obra-prima”.
É preciso – digo eu – ousar corrigir o severo Antônio Torres, afirmando que “Mágoa de vaqueiro”, pungente drama de um sertanejo que morre de paixão por ter sua filha fugido com o namorado,  é, sim, uma perfeita obra-prima – e não é a única em Tropas e boiadas. Também se pode assim classificar ao menos mais três das narrativas curtas: “O saci”, “A alma das aves” e “Ninho de periquitos”, e o romance Gente da gleba.
Também o meu antecessor imediato, Kurt Pessek, ao se empossar nesta Casa, no dia 25 de setembro de 1991, na condição de sucessor de Luiz Viana Filho nesta Cadeira 29, se referiu a Hugo de Carvalho Ramos, com concisão mas com bastante justiça. Disse Kurt Pessek que Hugo de Carvalho Ramos “surge vulcânico, a arrostar a crítica, a se impor. Firme e engenhoso,  faz nascer criaturas que parecem respirar”. E arremata: “Sentar na cadeira de Carvalho Ramos dignifica qualquer um”.
Falando de Kurt Pessek,  devo informar que nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1934, e faleceu em Brasília, em 2013. Seguiu a carreira militar, ingressando no Exército, no qual alcançou o posto de coronel. Atuou também na Aeronáutica. Participou do governo federal, na presidência do General Ernesto Geisel. Foi também jornalista, tendo dirigido o jornal Última Hora em Brasília. De sua atuação política é justo e necessário salientar que prestou valiosa contribuição ao processo de redemocratização do Brasil, ao participar, em 1984 e 1985, da campanha eleitoral do governador de Minas Gerais, Tancredo Neves, candidato a Presidente da República, e que, eleito pelo Colégio Eleitoral, faleceu antes de tomar posse do cargo.
Pessek escreveu vários livros, entre os quais se salientam: Espada, Terço e Trabuco, Os patriotas e Os descaminhos da Liberdade, ambos os três de ficção histórica.  O primeiro, no dizer de Cassiano Nunes, “descreve as primeiras décadas do século XIX no Ceará, as lutas entre os Melos e os Mourões e personagens ligadas à Igreja e ao Exército. Informa mais Cassiano Nunes: “O volume, baseado em documentos fidedignos, demonstra que a grande luta, no Brasil, foi sempre a luta pela posse da terra, pela grande propriedade, problema que continua atual no sertão, no campo. A obra, com serenidade e imparcialidade, demonstra também que a nossa história real – não a oficial, versão rósea dos fatos – está marcada pela violência e pela crueldade”. Os patriotas reconstitui um breve momento – entre o início de outubro e o decurso de dezembro de 1711– da história do Brasil: o episódio de uma quase revolta popular contra a Coroa Portuguesa. Os patriotas, premiado em 1984 pela Fundação Cultural do Distrito Federal, foi editado em 1985. Os Descaminhos da Liberdade é um romance que reconstitui a chamada Inconfidência (que sempre prefiro chamar de Conjuração) Mineira. 
O trabalho literário que certamente assegura a Kurt Pessek segura permanência no concerto dos autores brasileiros é o Dicionário de Palavras Interligadas, Analógico e Ideias Afins, editado, em Brasília, em 2010. Obra de extraordinário fôlego, contém 809.075 verbetes, muitos deles definidos e exemplificados de modo muito minucioso, em mais de uma página. Esse livro exigiu do autor mais de quarenta anos de pesquisas e mais de trinta anos de trabalho na fase da escrita. Para escrevê-lo, recorreu a sessenta e oito obras de outros autores. Que eu saiba, antes desse dicionário de Kurt Pessek só apareceram, no Brasil, dois outros da mesma natureza: o primeiro, intitulado Dicionário Analógico da Língua Portuguesa (Ideias Afins), de autoria de um professor secundário da Cidade de Goiás, Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, e que, embora elaborado ainda no início do século passado, somente veio a ser  editado após a morte do autor,  já na década de 1940; e o outro, denominado Dicionário Analógico (Tesouro de vocábulos e frases da língua portuguesa), escrito pelo sacerdote jesuíta Carlos Spitzer, alemão criado, a partir dos cinco anos de idade, em Porto Alegre, onde foi professor – lente catedrático –, no Colégio Anchieta, e que faleceu com apenas trinta e nove anos de idade, em 1922. Seu dicionário foi editado também postumamente, em 1936, em Porto Alegre.
Tive a satisfação e privilégio de conhecer Kurt Pessek em pessoa, em um encontro único, ocorrido em um almoço do Clube dos 21 Irmãos Amigos, nesta Capital, a que fui generosamente convidado pelo meu saudoso amigo Dario Abranches Viotti, valoroso escritor e jurista mineiro-paulista de quem tive a honra de ser colega de trabalho na Consultoria Legislativa do Senado Federal. Durante o almoço, realizado, calculo que em 2002, ou 2003, no restaurante do Clube de Golfe de Brasília, sentei-me à mesa ao lado de Kurt Pessek. E conversamos. Ele se revelou um conversador inteligente, culto, agradável, generoso. Eu ainda não sabia, então, que ele escrevia. Depois é que o soube, presumo que por informação de Dario Viotti.
Possuo também de Kurt Pessek uma palestra, de cunho filosófico, gravada em um documento audiovisual, sobre o tema Vida, que ele pronunciou em 2008 no mesmo Clube dos 21 Irmãos Amigos, e que me foi gentilmente proporcionado, junto a um exemplar do romance Os patriotas, pela sua viúva, Neuza Pessek, a quem devo, mais uma vez, agradecer, desta vez de público, por suas bondosas atenções.   
Kurt Pessek ingressou nesta Academia no dia 25 de setembro de 1991, tendo sido saudado pelo professor, ensaísta e poeta Cassiano Nunes, um paulista de São Vicente que escolheu Brasília para viver a parte mais madura e a derradeira da sua vida. Devo transcrever, do discurso de Cassiano Nunes, estas palavras: “Senhor Kurt Pessek! Vós chegastes ao vosso lugar! Aprestai-vos para as campanhas incruentas do intelecto, para o mutirão em que o espírito nacional já está transformando o presente em futuro! Brasília é o lugar ideal para concretizar esse sonho de missão intelectual”.
Do discurso de posse de Kurt Pessek, considero relevante apresentar um expressivo trecho: “Meus senhores e minhas senhoras, sou a dizer-lhes, em nome da gratidão, que apesar de ter escrito por anos a eito para outros, minha verdadeira oportunidade surgiu na querida Fortaleza, pela mão do Presidente da Academia Cearense de Letras, Cláudio Martins. A ele, e só a ele, devo a publicação do meu livro Espada, Terço e Trabuco, no qual tento mostrar a atuação das três grandes forças que formavam o Brasil monárquico.
“Há mister encerrar o discurso. Se sou com os confrades desta Casa de cultura, sou por galhardia de seus notáveis membros. Saibam ter sido esta a maior venera que a vida me ofereceu”.
Mais adiante, depois de informar: “Procurei exaustivamente no regionalismo brasileiro o exemplo de fé capaz de dizer o quanto me vai n’alma”, declarou Kurt Pessek: “Ainda no regionalismo, uso do verso que encontrei no livro Mil Quadras Populares Brasileiras, Carlos de Góes (1916). Serve-me bem de encerro:
Eu vou dar a despedida
Como deu o São José
Foi saindo, foi dizendo
Té amanhã, se Deus quisé.
Concluo, enfatizando minha gratidão muito profunda a todos os membros da Academia Brasiliense de Letras que tiveram a bondade de sufragar meu nome para compor este sodalício que tanto honra e valoriza a vida cultural de Brasília e do Brasil. Preciso agradecer de modo bastante enfático o apoio, em que se mostrou infatigável, que me prestou o meu amigo Fábio de Sousa Coutinho.