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quarta-feira, outubro 06, 2010

Enrevista de José Godoy Garcia

Poesia e história
Essa matéria foi publicada na Edição 289 do Jornal Inverta, em 17/05/2001
Poesia e história
Por: Osmarina Portal

O poeta José Godoy Garcia, nascido em Jataí (Goiás), em 1918, filho de uma família tradicional da região - os Garcia - viveu vários momentos históricos do país. Quando criança teve contato com a Coluna Prestes; se tornou comunista em 35, mas só em 1945 entrou para o partido; no Rio freqüentou rodas literárias com Lúcio Cardoso, Rubem Braga, Solano Trindade, manteve contato com Portinari e assistiu à histórica conferência de Mário Andrade no Itamarati, no Rio de Janeiro.
Como poeta, escreveu vários livros como “Aprendiz de Feiticeiro”, “Os Dinossauros dos Sete Mares”, “A Casa do Vira Mundo”, “Araguaia Mansidão”, “Caminho de Trombas”... Sua obra fala da beleza, da simplicidade do homem, dos animais da natureza. Em entrevista ao INVERTA, fala de forma simples, natural e de modo goiano de sua vida, poesia, política e de Goiás.

A Coluna Prestes em Jataí
JG - Em Jataí vivíamos falando em revolução, era uma cidade conservadora, e se falava “Vem aí os revoltosos de Prestes”. Minha família fugiu (pensou) da Coluna Prestes. Nós fomos para Araguari, lugar que os Godoys mandavam, ficamos lá seis meses. Aí disseram: “acabou podem voltar”, quando voltamos, Siqueira Campos tomou Jataí. Um dia, eu comprava carne de manhã no açougue do seu Brás, que disse: “menino, os revoltosos estão aqui”. Olhei para o curral que tinha perto, lá estava uma porção de gaúchos. Pensei: “eles vão me matar”. Cheguei em casa tinha uns quatro ou cinco sentados conversando com minha mãe e ela servindo café para eles; no quintal, tinha mais uns dez, eles gostavam dos quintais. Minha mãe me disse: “Vai na Almeria (minha tia) e fala que os revoltosos estão aqui”. Chegando lá, estava aquela farra. Minha tia era boa de cabeça como os revoltosos. Eu brinquei com eles, desci, fui encontrar meus amigos pra falar que era amigo dos revoltosos. Chegando lá, os revoltosos estavam na maior farra com os meninos. Eles arremataram o único doce que tinha na loja e deu para os meninos, era um tal de comer cocada. Essa é a revolução de Jataí em 1926.
O comunismo
JG - Eu achava a vida extremamente amarga e que devia me preocupar com os outros. Eu tinha um amigo negro, gostava muito dele; e era muito ligado ao velho baiano, seu Bandeira, que era pião do meu pai. Liguei o comunismo como uma solução. Um dia o Américo veio me falar que tem que haver uma igualdade, tem que melhorar a vida, e isso grudou em mim. Na época eu era bem situado. Sai de Jataí e fui estudar em Uberlândia. Ela era formidável, passei para o ginásio e o diretor do ginásio era o famoso Mário Magalhães, de Pernambuco. Ele me dava aula de História, como surgiu o homem, o primeiro instrumento, os alunos cochichavam que ele era comunista. Em 1932, fizemos uma biblioteca, o primeiro livro de Jorge Amado foi vendido nela. Lá nos tornamos comunistas, em 1935, mas só em 45 entrei para o Partido.
Goiás Velho
JG - Com a derrota do movimento de 1935, fui embora para Goiás Velho, uma cidade cheia de buracos de morcego, era a maior dificuldade para viajar no tempo das águas, passamos cinco dias em Anápolis. Chegamos a Goiás Velho em um caminhão, chovia muito, ficamos um mês sem sair de casa. Numa tardinha fui para o jardim. Esse dia parecia uma coisa de magia, um paraíso, muitas moças, elas andavam em grupo de oito ou dez, uma mais bela do que a outra, fiquei doido por Goiás Velho, eu estava com 18 anos, isso em 1936.
Uberlândia era crua de cultura, já Goiás era um centro de cultura, um espanto para o tipo de Estado que era Goiás. Meu professor Ferreira fez um dos melhores dicionários. Se tinha estima, prestígio pela cultura, tinha um gabinete literário que era um centro formidável, e o povo comentava ‘fulano de tal é um grande poeta’. Nesta época estava no auge o Integralismo em Goiás, era uma coisa horrível, Pirinópolis era um peso de integralistas, Goiás Velho e Flori também. Aí fizemos o método do Liceu, onde estudava: fomos lá arrebentamos a sede deles em Goiás Velho, levamos os arquivos para a praça pública e queimamos. Foi o primeiro movimento revolucionário que participei. Nesta época eu era comunista de nhenhem.
O reacionarismo dos Caiado é antigo
JG - Bernardo Elisn estava começando, ele escrevia no jornal do Liceu, eu conto isso no meu livro “Aprendiz de Feiticeiro”, porque faço críticas ao livro do Bernardo. Nós discutíamos muito sobre seu livro “Tronco”. O mesmo foi um livro falso, pois a família dele era influenciada pelo caiadismo. Ele não quis encarar certos problemas porque o Caiado cometeu um crime abminável, fez uma matança no tronco e matou o Voli, um herói que combateu Caiado. Caiado tirava terra dia e noite, depois dizia “vocês podem revogar a lei”. Abil Voli foi em cima dele, ele era franzininho, do Norte. Bernardo não conta isso no “Tronco”.
A iniciação poética
A minha primeira poesia foi horrível, a poesia de Manoel Bandeira me influenciou muito, ela é extremamente simples Lá longe o Sertãozinho de Caxambá... Bandeira era comovente. A leitura do poeta goiano Leo Lince que me fez valorizar a poesia, a cultura e o conhecimento. Em 1938, fiquei meio desnorteado e tive um diálogo comigo mesmo, tinha que dar um rumo na minha vida. Então comecei a ler, encontrava o Bernardo e começava discutir, ele era curioso, atencioso... Comecei a publicar no “Popular”. Escrevi uma poesia como a de Manoel Bandeira que evocava Recife, e fiz evocando Goiás Velho, foi publicada com o pseudônimo de Zé da Rua. Os 99% dos assinantes eram de Goiás Velho, eles devolveram o jornal, foi uma briga desgraçada, não pude ir a Goiás por 10 anos. Quando voltei, a Consuelo Caiado me falou: “Godói, nós vamos acertar conta. O que você fez com a família de Goiás?”
Em uma das primeiras poesias que fiz, relatei um fato de Jataí, um dentista de lá deflorou uma moça que era filha de um baiano, ele queria esfolar o dentista. Dois anos depois quando retornei a Goiânia, tinha um bordel famoso da Maria Branca, ela foi personagem de Garcia Marques, na hora que eu ia entrando o baiano estava encostado na parede e lá dentro já tinha duas filhas dele. O senhor Vítor estava lá para pegar dinheiro com as filhas, olha a decomposição do ser humano, então eu fiz uma poesia extremista, vanguardista. “Caiu um olho, o homem ficou sem ele/ Caiu um dente, o homem ficou sem ele/ Caiu a filha, o homem ficou com vergonha/ Caiu a vergonha, vai pedir dinheiro emprestado no bordel”.
Entrei na Bolsa Carvalho Ramos, em 1944, era uma bolsa de divulgação que tinha na prefeitura de Goiânia. Fui influenciado também pela poesia do americano Langston Hugues. Ele era um grande poeta, então fiz “Canto ao Poeta Negro”, que li em um comício.
Stálin teria derrotado Hitler sozinho
A luta pela anistia dos presos políticos foi um movimento formidável em Goiás, foi feito através da Associação de Escritores Brasileiros. Durante as duas guerras, houve um desprezo pela teoria. Quando veio a vitória da Rússia, foi um impacto cultural na consciência da humanidade, antes a Rússia estava isolada, tivemos que fazer um movimento pela Segunda frente. Stálin teria derrotado Hitler sozinho. Hoje só se fala na matança dos judeus, quem salvou não se fala. Pedro Ludovico colocou como vitória do Estado Novo.

2 comentários:

Fanzine Episódio Cultural disse...

O Fanzine Episódio Cultural é uma jornal bimestral (Machado-MG/Brasil) sem fins lucrativos distribuído gratuitamente em várias instituições culturais, entre elas: Casa das Rosas (SP/SP), Inst. Moreira Salles (Poços de Caldas-MG) e Cia Bella de Artes (Poços de Caldas-MG). De acordo com o editor e poeta mineiro Carlos Roberto de Souza (Agamenon Troyan), “o objetivo é enfocar assuntos relacionados à cultura, e oferecer um espaço gratuito para que escritores, poetas, atores, dramaturgos, artistas plásticos, músicos, jornalistas... possam divulgar suas expressões artísticas”.

Anônimo disse...

Muito bom!! vai cair na UFG e me ajudou a compreender a temática do Zé godoy;)